Intercessão dos Santos ou Comunicação com os mortos?

Para facilitar a vida, acho que vale a pena traçar algumas distinções:

Santo - quem está na graça de Deus, seja na terra, no Purgatório ou no Céu.

Purgatório - onde as almas que faleceram na graça de Deus, mas até se tornarem *perfeitamente* santas, purgam as consequências temporais de seus pecados. O menor sofrimento do Purgatório é pior que o maior sofrimento na terra, o que faz as orações por elas (em benefício delas, para ajudá-las) muito valiosas e caridosas.

Visão beatífica - visão face a face de Deus, que permite que se saiba das orações dirigidas a alguém. Só a tem os perfeitamente Santos, que estão no Céu. Para os outros ela seria insuportável, como olhar para o sol.

Intercessão - pedido a Deus por outrem.

Canonização - literalmente, "inserção na lista" (o "cânone" que lista aqueles que temos certeza de que estão no Céu), com dedicação de dia de festa, etc., para o culto da Igreja toda. Antigamente isso era feito por aclamação popular, o que fez com que o próprio Buda esteja no cânone sob o nome de São Josafá (corruptela de Boddhisatva) Depois passou a ser obrigatório um processo (como o de Frei Galvão). No Brasil a aclamação popular ocorreu com Padre Cícero, mas evidentemente, por já haver a necessidade do processo de canonização, ele não foi inserido no cânone dos Santos.

Assim, todos nós podemos interceder, mas só os Santos no Céu (tanto os canonizados quanto os anônimos, celebrados todos juntos no dia de Todos os Santos) podem saber de cada pedido de oração que lhe é feito, sem o uso dos sentidos. Os outros (na terra e no Purgatório) até podem, por graça especial divina, vir a saber de um pedido de oração, mas certamente não é a regra nem se pode contar com isso.

Sabe-se, por exemplo, que o martírio leva ao Céu sem necessidade de Purgatório. Assim os mártires iraquianos recentes, por exemplo, certamente podem interceder por nós e saber que estamos pedindo que intercedam, mesmo antes de uma sua eventual canonização.

A nossa intercessão é valiosíssima, devendo ser feita em benefício das almas do Purgatório e dos vivos. É esta "trama" de intercessões a unir na graça divina a Igreja Militante (nós), a Igreja Padecente (as almas do Purgatório) e a Igreja Triunfante (os Santos no Céu) que compõe a Comunhão dos Santos, que é a Igreja Católica.

Se há alguém que temos certeza moral de que é Santo, por exemplo, podemos pedir a intercessão dele sem qqr problema de consciência. A canonização serve para permitir *o culto oficial da Igreja, tomando-o como exemplo*, não para permitir que se lhe façamos orações pedindo a intercessão dele. Na pior das hipóteses, ele não as ouvirá, mas Deus sim.

Do mesmo modo, a beatificação é uma etapa do processo de canonização em que é permitido o culto em um determinado lugar, ou para uma determinada categoria de pessoas, mas não o culto universal. É o caso do Bem-Aventurado ("bem-aventurado" quer dizer literalmente "pessoa que foi para o Céu") José de Anchieta, que pode ser cultuado apenas no Brasil e dentro da Companhia de Jesus, por ter sido beatificado, mas não canonizado. Dizem as más línguas que ele não foi canonizado pq fundou a cidade de São Paulo. :)

O que os espíritas fazem, no entanto, não tem nada a ver com pedir a intercessão de Santos. Eles não pedem que os falecidos peçam a Deus por eles, mas sim que os falecidos venham contar fofocas, venham fazer isso ou aquilo, que os guiem (diretamente), etc. É a mesma diferença que há entre eu pedir a vocês que rezem por mim (por favor!) e eu pedir a vocês que ajudem fisicamente em alguma coisa ou me dêem idéias e orientações. Não há problema algum em pedir isto a um vivo, evidentemente, mas é proibido fazer este tipo de coisa com mortos como o fazem os espíritas.

A comunicação com os mortos só é permitida em mão-única, com um só assunto (do vivo para o falecido, pedindo orações); ainda que em raros casos Deus permita que um Santo, ou mesmo uma alma penada, se manifeste de maneira perceptível, isto é algo que não devemos procurar e do quê devemos fugir. É por isso que a Igreja ensina que devemos fugir de supostas relevações particulares, por exemplo.

Enquanto o católico, se tiver a impressão de que Nossa Senhora (ou a avó falecida, ou São Brás, sei lá) está falando com ele, foge, joga água benta e reza para aquilo parar de acontecer, o espírita senta na mesa com os amigos e fica, como um radioamador, procurando ativamente perceber algo "de lá pra cá". Evidentemente, o que ele percebe é 99% de origem nele mesmo e 1% de origem demoníaca.

Cabe notar que práticas supersticiosas semelhantes às dos espíritas ocorrem em muitas religiões naturais e em seitas heréticas, em que é comum ficar pedindo "sinais", etc. No protestantismo, em que é comum faltar ao respeito com Nosso Senhor e negar-Lhe, na prática, a condição divina (o modo como o protestante trata de Nosso Senhor é geralmente com menos respeito que o que seria devido a qqr Santo, e com muitíssimo menos respeito que o devido a Deus), é relativamente comum que se tente "invocá-l'O", ou mesmo que o herege ache que O viu sentado na cozinha de casa falando abobrinhas, ou que Ele lhe teria soprado esta ou aquela revelação às orelhas, coisas de que qqr católico fugiria.

Isto ocorre - em geral apenas com Nosso Senhor no protestantismo e com todos os falecidos nas religiões naturais - pq é da natureza humana perceber que há vida após a morte, e perceber que a caridade não termina com a morte. O problema é que estas percepções, quando desordenadas, levam à necromancia (tentativa de bater papo com defuntos), no caso protestante piorada pelo desrespeito a Nosso Senhor.


©Prof. Carlos Ramalhete - livre cópia na íntegra com menção do autor
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1 comment:

  1. São Josafá é o Buda????????
    Conta melhor essa história!!
    O post está ótimo,como de costume.

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