Violência

O que é a violência, e porque nem toda violência é má.

Fazem-se campanhas "contra a violência", como se violência fosse uma coisa má. Não é, nem poderia jamais ser. Violência, em si, é moralmente neutra. O que é mau é a violência injusta, a violência desordenada, o uso indevido de violência.

Assim como o pai que dá umas palmadas no filho porque ele fez uma coisa errada está fazendo um ato violento (note que não estou falando de boçais que surram crianças; a mídia vai sempre colocar a coisa para o lado do exagero, como se todo menor trabalhando estivesse cortando cana aos quatro anos de idade e toda palmada fosse uma sessão de tortura), Nosso Senhor, ao expulsar a chicotadas os vendilhões do Templo também estava fazendo um ato extremamente violento.

Estes dois atos, porém, ao contrário de, por exemplo, a ação de um pit-boy imbecil que surra um sujeito porque é preto, bicha ou velho, são atos violentos e meritórios. Já o pit-boy está cometendo um pecado grave.

Vem então as "camapnhas contra a violência" e pedem mais polícia. Ora, a ação da polícia é forçosamente violenta. Polícia não serve para convencer ninguém tomando um chopinho, serve para prender e enfiar a força na caçamba do camburão. É uma violência, porém, necessária. Trata-se assim de uma contradição, com que os "anti-violentos" tentarão conviver com algum sofisma do tipo "o melhor seria não haver violência nenhuma" (o que poderíamos traduzir teologicamente como "o melhor seria ninguém sofrer as consequências do pecado original e assim não haver nunca nem necessidade de atos violentos ordenados, nem atos violentos desordenados), "mas já que há, que seja restrita a uma classe, a policial".

O problema é que isto coloca nas mãos da polícia não apenas uma responsabilidade que é absurda e impossível de cumprir, como impede que aqueles a quem esta responsabilidade verdadeiramente compete a cumpram.

Ontem mesmo eu estava conversando com um policial daqui. Eu havia reparado que todos os policiais de minha cidade estavam agora carregando, além do revólver regulamentar, uma pistola, sempre do mesmo modelo. Perguntei a ele porque todos usavam o mesmíssimo modelo de pistola, se ela teria sido fornecida pelos superiores. Ele então me explicou que não, que eles haviam comprado juntos as pistolas, com seus próprios salários, para pagar menos por elas. E me explicou que ela estava sendo cada vez mais necessária, pois os bandidos estavam cada vez mais armados, os cidadãos honestos cada vez mais desarmados, e a ele e aos outros dois policiais de plantão no DPO competia tentar diminuir a diferença, o que seria difícil com um 38 com seis balas...

Ou seja: os três coitados juntos estão tendo agora que fazer aquilo que compete a eles (a segurança das vias públicas, verificação de condições de tráfego de automóveis, tirar bêbados de bares, em suma, o que sempre havia sido o cotidiano policial em uma cidadezinha), MAIS aquilo que eles sempre haviam confiado, com razão, que seria feito pelos pais de família (espantar bandidos que invadem casas, impedir a implantação de bocas de fumo, etc.).

O resultado desta situação é evidente a quem tem olhos para ver: o aumento enorme de todo tipo de ato de violência, ordenado (correto, como prender o bandido ou expulsá-lo de uma casa) e desordenado (crime). Os criminosos sentem-se mais à vontade, mais poderosos, por saberem que não encontrarão resposta. A polícia, ao enfrentar criminosos mais autoconfiantes, precisa usar de mais força. E nós, no meio, tentamos escapar das balas perdidas...

Notemos que a violência policial (não o abuso dela: a violência legítima, como prender, procurar impedir pela força o crime, etc.) é uma violência ordenada. Ela, entretanto, forçosamente cresce de maneira proporcional à violência desordenada que combate.

Todos nós, tanto os honestos quanto os desonestos, tanto os policiais quanto os verdureiros e sequestradores, somos marcados pelo pecado original. Todos nós temos vontades que não se curvam naturalmente à razão. Todos nós, então, precisamos fazer coisas que violentam as nossas vontades (como não roubar, não cometer adultério, etc.). A imensa maioria tenta fazê-lo, e frequentemente consegue. Os que não tentam, porém, acabam por impor a todos os que tentam uma reação. É esta reação, correta e justa (castigar os que erram é uma obra de misericórdia, não podemos esquecer), que se está tentando impedir, colocando-a sobre as costas dos policiais, que não têm como estar em toda parte nem como agir sempre com força superior. O resultado é que eles estão morrendo como moscas, os honestos estão vivendo no terror e os bandidos, a quem não interessa em absoluto se é crime ou não ter armas - já que saem de casa com o propósito de cometer um crime de qualquer maneira - estão cada vez mais bem armados e em superioridade cada vez maior.

Aproveito o ensejo para lembrar um ponto de teologia moral:

A Ira.

A Ira desordenada é um dos sete vícios capitais. Como reconhecer, porém, a ira ordenada, aquela ira santa que é justa e boa?

Simples:

Ela é justa no objeto (ou seja, é dirigida contra o verdadeiro culpado, não contra o mensageiro que traz as más notícias, por exemplo);

Ela é moderada no exercício (ou seja, ela não abusa da força nem se compraz no sofrimento alheio);

Ela é caridosa na intenção (ou seja, ela não é uma mera vingança, mas uma correção do culpado e/ou proteção de alguém).


©Prof. Carlos Ramalhete - livre cópia na íntegra com menção do autor

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