Emoção, Fé e Razão

O perigo que é substituir a Razão e a Fé pela emoção.

Hoje em dia, infelizmente, há muitas pessoas que deixam de lado a Razão, o raciocínio, e preferem confiar em seus fracos sentidos e emoções. Ora, isso já é perigoso para o corpo - afinal é apenas o raciocínio que nos leva a saber que uma arma apontada para nós é perigosa, já que nossos sentidos e emoções não nos mostram o perigo que ela apresenta - mas é muito mais perigoso para a alma.

Muitas pessoas, assim, passaram, infelizmente até mesmo em meios católicos, a expressar e crer de modo totalmente emocional, sem dar ouvidos à Razão que Deus nos deu para que possamos crer. Creio para entender e entendo para crer, dizia Santo Agostinho. Muitas pessoas procuram na Religião não a Salvação, a Verdade, a Vida Eterna, mas apenas sensações agradáveis, emoções que as façam sentir-se bem consigo mesmas.

Disse o Senhor: "Eu te instruirei, e ensinar-te-ei o caminho que deves seguir; ... não queiras ser como o cavalo e o mulo sem entendimento" (Sl. 31,8-9). Nosso dever de cristãos é procurar entender, aprender o que a Igreja que Cristo mandou ensinar a todos os povos (Mc 16,15), usar a inteligência que Deus nos deu e não ser "como o cavalo e o mulo", que nada compreendem e vivem apenas em busca do que seus sentidos dizem ser bom.

Esta busca da emoção, do sensível (aquilo que percebemos por nossos sentidos), é algo que pode trazer problemas enormes para uma pessoa bem intencionada. A Fé edificada sobre a emoção não é Fé verdadeira, mas mera busca de recompensa rápida, tão pouco profunda e tão ineficiente quanto a caminhada do burrico atrás da cenoura que seu mestre mantém pendurada adiante dele para que ele não pare de caminhar.

Isso acontece freqüentemente em Grupos e Oração e Encontros, em que as pessoas são levadas a um estado emocional perturbador, que acreditam ser Deus agindo nelas. Este estado, porém, não é um estado permanente, mas uma mera excitação nervosa que seria provocada de modo muito similar se estivessem assistindo a um espetáculo não-religioso. O problema, porém, é que para estas pessoas, isso é a Fé, isto é a Religião. A Religião, para elas, resume-se em um estado de espírito agradável, em uma sensação que forçosamente um dia irá passar. Elas tomam uma experiência emocional por uma revelação, e um estado emocional pela Graça de Deus.

Ora, este estado passará. Mais cedo ou mais tarde, coisas desagradáveis virão a ocorrer, e estas pessoas não estarão preparadas para elas. Na vida cotidiana, nos pequenos problemas encontrados ao longo do caminho, elas vão ver obstáculos enormes, e no fim daquela exultação emocional verão o fim de sua "fé", edificada não sobre Cristo, mas sobre suas emoções passageiras.

O que é a Fé? Ter fé é crer, é acreditar no que não se vê, em um ato da vontade e do intelecto, não sentir. A Fé não é algo que possa ser sentido, e muitos dos maiores Santos nunca, jamais, tiveram qualquer tipo de consolo ou sensação agradável enquanto caminhavam pela Terra. Dizemos no Salve Rainha que somos degredados, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. É nas lágrimas, é na Fé que persiste apesar da ausência total de sensações agradáveis, que está a Cruz, que é nosso caminho. Cristo não veio para nos dar uma vaga "sensação de bem-estar"; este, ao menos segundo o que diz a publicidade, é o ramo dos desodorantes e outros produtos. Cristo veio nos dar a graça de carregarmos com Ele nossas cruzes, para um dia, após a morte, estarmos junto a Ele no Céu. Lá, sim, não mais haverá situações desagradáveis.

Cristo nos deu Sua Igreja, que tem a tríplice missão de ensinar, santificar e governar.

O Ensino da Igreja é a Doutrina que Cristo ensinou, Doutrina essa que não é "sentida", mas estudada e aprendida pela Razão. De nada adianta fazer trezentos "Encontros" por ano e sentir-se "feliz" se não buscamos aprender o que Cristo ensinou. Não será pelo nosso estado emocional que poderemos aprender a Doutrina, mas sim pelo estudo do Catecismo.

A Santificação ocorre por meio dos Sacramentos, que são sinais visíveis de uma realidade invisível. Esta realidade invisível é a Graça de Deus que eles conferem. A Graça não pode ser vista, não pode ser sentida nem sequer percebida pelas emoções. Receber o Sacramento da Reconciliação após a confissão dos pecados a um sacerdote não causa nenhum estado emocional preciso, mas nos faz voltar a ter a Graça. É bem verdade que pode haver, e em muitos casos há, uma grande alegria por nos vermos livres da inimizade de Deus, que certamente nos valeria o Inferno caso morrêssemos neste estado, mas isso não é causado diretamente pelo próprio Sacramento, mas sim pelo reconhecimento que fazemos de nossa situação depois de recebê-lo.

Do mesmo modo, receber o Santíssimo Sacramento não é tomar um remédio psiquiátrico de tarja preta que faça imediatamente o triste sentir-se cheio de alegria, mas sim receber o sinal visível da Graça de Deus que Ele nos infunde e que não pode ser percebida. Ninguém pode ver a Graça, ninguém consegue senti-la ou percebê-la de qualquer forma que seja. Procurar estados emocionais não é de modo algum equivalente a buscar a Graça de Deus, e abandonar a Razão, abdicar de nosso livre-arbítrio (a nossa capacidade de escolher entre duas coisas que parecem boas) em prol apenas da busca de emoções que supostamente seriam sinais visíveis de Deus é rejeitar os Sacramentos que Cristo nos deu e que são necessários para nossa Salvação.

O Governo da Igreja é feito por Sua hierarquia, que transmite a Doutrina, ministra os Sacramentos e governa por suas normas a vida dos cristãos. A busca de emoções faz com que muitos, infelizmente até mesmo sacerdotes, deixem de obedecer ao que nos ordena o Santo Padre e a Lei da Igreja. Vemos freqüentemente Missas celebradas de modo quase blasfemo, em que o objetivo primeiro e, por que não dizê-lo, único, parece ser a busca de emoções. Música de rock tocada em volume ensurdecedor, gestos coreografados, palmas, coisas que têm como função única despertar emoções nas pessoas são encontrados em muitas paróquias, desobedecendo frontalmente a Lei da Igreja, que tem regras muito estritas acerca do que é ou não permitido na liturgia. Isto é tanto mais perigoso por fazer com que seja deixado de lado e praticamente esquecido o que é realmente importante naquele momento: que ali no altar, defronte de toda uma multidão buscando emoções, está Cristo, morrendo na Cruz por nossos pecados.



©Prof. Carlos Ramalhete - livre cópia na íntegra com menção do autor

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