Amar e ser amado

O maior engano amoroso, e também o mais comum, é o de quem pensa "eu a amo tanto, que ela deve me amar também".

Daí vem tantas incompreensões e desenganos amorosos.

Pois é esse exatamente um erro que cada vez mais venho encontrando em católicos fiéis e bem intencionados: o ledo engano que é achar que amar significa ser amado. Assim, em nome de um suposto amor aos irmãos, preferem abdicar de sua consciência e colaborar por ato ou por omissão com o erro cometido pelo irmão.

Em muitas ocasiões, uma atitude nossa, movida por amor profundo, não é exatamente aquilo que uma pessoa quer. Quando uma criança, por exemplo, se aproxima da borda de um poço, temos que tirá-la de lá, ainda que ela não concorde e chore muito.

O mesmo acontece, embora de maneira menos evidente, entre adultos. Quando alguém está fazendo algo que vai causar-lhe problemas mais tarde, alguém que realmente o ame certamente deverá alertá-lo.

Mas não é isso o que vemos quando se trata exatamente do que é mais importante cuidar: nossa alma. Muitas pessoas abandonam a Igreja por falta de conhecimento, indo parar nas mãos de seitas e, caso não se arrependam, no Inferno. Realmente não creio que a maior parte dos sectários, ou sequer um número significativo dentre eles, tenha uma perfeita contrição na hora de sua morte, único caso em que poderiam ser salvos.

Assim essas pessoas estão em um estado que, a não ser em casos realmente excepcionais, as conduzirá ao Inferno. Além disso, muitos dentre eles são pessoas que estão realmente buscando fazer o que acreditam erroneamente ser a vontade de Deus. Essas pessoas merecem conhecer a Verdade e nós devemos tentar ajudá-las, exatamente por amor.

Elas estão se encaminhando por entre as brumas, buscando a Salvação. A Salvação está na Igreja. Eles têm uma noção completamente errada do que seja a Igreja (basta ver as acusações absurdas que sempre fazem: imagens, Nossa Senhora...), e por isso lutam contra Ela e blasfemam o nome de Deus.

Assim sendo, é muito difícil falar para eles da Fé, assim como é muito difícil tirar uma criança da beira do poço ou convencer um adulto rico a não cheirar cocaína nas festas com os amigos. Eles já têm preconceitos fortíssimos contra a Igreja, tendo em geral tentado chegar a Deus n'Ela e encontrado política, libidinagem...

Tudo o que é distintivamente católico tem sido obliterado em nome de um suposto amor aos irmãos separados. Ora, o que se tem feito é buscar convencê-los de que a Igreja é "uma igreja" como a deles, que tanto faz ser católico ou protestante, que o amor é lindo e a vida é tão bela...

Ou seja: os católicos estão confundindo amar e ser amado, estão confundindo ajudar com consentir no erro, evangelizar e calar.

Pululam no meio católico posturas como "toda religião leva a Deus" (condenada de modo infalível pela Igreja), "o protestantismo é apenas outra maneira de servir a Deus" (idem), além de vários outros postulados universalistas que sabem a heresia, com tendências a, abdicando de toda doutrina e abandonando os Sacramentos, criar uma pretensa Religião Mundial, União de Homens de Boa Vontade e outras idéias maçônicas.

A catequese é ignorada e a evangelização é proibida. Os protestantes podem vir para a porta da Catedral no dia de Nossa Senhora Aparecida e fazer um mafuá, mas os católicos não podem responder ou sequer buscar trazer de volta os irmãos caídos em heresia.

O que isso produz é triste: os protestantes acusam, e com razão, os católicos de laxidão moral. Ele realmente acham que católicos roubam, andam seminus pelas ruas, embriagam-se cotidianamente, etc., com o beneplácito da Igreja.

Realmente é chocante a maneira como muitas pessoas não conseguem encontrar ajuda na Igreja, que está ocupada demais em "amá-la" e não "assustá-la" com a Verdade.

Na Igreja não acham o Padre, a não ser na hora da Missa (podem até cruzar com ele no corredor, mas aquele sujeito de bermudas e chinelas é o padre?!). Saem da Igreja e vêem um sujeito de terno e gravata, com uma Bíblia debaixo de braço, dizendo que ele era um cachaceiro desempregado e agora é um trabalhador e pregador da Palavra de Deus.

Assim, paradoxalmente, aqueles que têm tantas doutrinas quantos fiéis são escolhidos por aparentarem ter dogmas a dar. Eles parecem organizados, parecem saber o que é verdadeiro, em suma: parece que "Deus deu um jeito neles". Em algumas seitas mais iniciáticas, como os mórmons (aqueles que usam calça social e camisa, cabelo cortado curto e crachá com o nome no peito), costumam ter aparência uniforme e dar ao pobre coitado que está buscando a Deus em sua vida a ilusão de entrar para um "exército de Deus". Os católicos fazem questão de ignorar a doutrina da Igreja, não ajudar a quem procura por achar que isso o ofenderia, sem se dar conta de que estão fazendo algo de muito pior.

É só ver como são contraditórios os sinais que vemos na Igreja: os "progressistas" estão empenhados em tornar a Igreja cada vez mais laxa em termos de doutrina e moral; Frei Betto estava louvando os "casamentos" de homossexuais enquanto a CNBB publicava Nosso Senhor Jesus Cristo, Verbo de Deus por Quem todas as coisas foram criadas, sendo "abençoado" por uma mãe de santo que Lhe dizia que Ele teria um bom orixá!

Enquanto isso, multidões de pobres isolados de sua fé e proibidos das expressões que lhes são mais íntimas abandonam a Igreja em busca de seitas que pelo menos reconhecem que, como a Igreja ensina, o pecado de Sodoma é um dos quatro crimes que bradam aos céus por vingança (a título de curiosidade, os outros são: assassinato deliberado - como o aborto, opressão dos pobres - não em um sentido marxista; mais-valia não caracteriza opressão - e negar a um trabalhador a sua paga). Essas seitas não apenas nunca blasfemariam ao ponto de colocar Nosso Senhor buscando a bênção de demônios, como chegam a invadi-las para quebrar tudo.

O nosso povo está tão desesperado com a atual crise moral e doutrinária da Igreja que está partindo para o exagero oposto, buscando em seitas fundamentalistas ao menos alguma verdade revelada por Deus (leia-se dogma) a que se ater em um mundo evidentemente errado.

Crescem as seitas que exigem saias para as mulheres e véus durante o culto, e vemos na Santa Missa mocinhas de família com roupas que há poucos anos só seriam vistas em calçadas mal iluminadas e no cais do porto.

Tudo isso fruto de um engano: achar que a ordem que Cristo nos deu de amar o irmão significa ser amado por ele ao transigir em tudo, até no essencial.

Muitas vezes nos vemos às voltas com o mesmo problema: Alguém nos lembra o que a Igreja sempre afirmou, ou seja, que o amor consiste buscar o bem do amado, e outra voz levanta-se do Inferno para afirmar, em outras palavras, que amar significa buscar a afeição do amado.

A cada vez que alguém lembra que os hereges estão se encaminhando para o Inferno, vem outro e diz que não devemos ajudá-los a se libertar de tão terrível destino, mas sim "amá-los". Ora, o problema é portanto o seguinte: o que é amor?

Amar não significa ser amado. Amar significa querer o bem daquele que é amado. O Bem em Si é Deus. Todos os outros bens o são apenas por refletirem, e sempre de modo imperfeito, o Bem Supremo, que é Deus.

Um herege que se considere salvo e esteja feliz em sua seita tem nesta felicidade um bem apenas aparente, visto que ela o separa na verdade de Deus.

Amá-lo significa, neste momento, deixá-lo cheio de dúvidas a respeito daquela seita que lhe parecia tão boa, mostrar a ele a insensatez dos líderes a quem serve, para que ele possa se abrir à Graça de Deus e voltar à Única e Verdadeira Igreja.

O fato dele ser batizado só torna mais premente a sua necessidade de cumprir os Mandamentos, assistir o Sacrifício de Cristo na Missa dominical e dos dias de festa, comungar pela Páscoa e confessar seus pecados para receber do sacerdote, que ae na Pessoa de Cristo, o perdão de seus pecados.

Ele certamente não ficará contente logo de início, não. Mas é necessário que destruamos as suas falsas convicções para que ele possa vir a aceitar a Verdade.

Amar é portanto o mandamento primordial. E amar significa querer o bem do amado, não querer o afeto do amado. Este amor, que não visa o bem do amado mas o seu afeto, na verdade não é um amor ao próximo, mas sim a si mesmo. É querer ser bem tratado e considerado "respeitador" pelos hereges. É deixar de lado a Verdade Revelada para abraçar o afeto e o carinho daqueles com cujo erro compactuemos.

Isso não é amor, é egoísmo, é falta da caridade mais básica.

Nào devemos procurar a aceitação pelos hereges de nossa pessoa às custas da Verdade, mas sim a aceitação por eles d'A Verdade, d'O Caminho, d'A Vida.

Disse S. Benedito Labri: "Para amarmos verdadeiramente a Deus, devemos ter três corações em um: um coração inflamado de amor a Deus; um coração cheio de caridade para com o próximo; e um coração cheio de desprezo por si mesmo".

Não devemos buscar que nos amem, que nos aceitem, mas sim buscar, na verdadeira caridade (que não se confunde com indulgência!), levar os irmãos à Santidade, à Salvação, ao Bem Supremo. E para isso, eles devem voltar à Igreja.

Amemos, pois: este é o Mandamento primeiro. E amemos verdadeiramente, buscando o bem do irmão amado, a sua Salvação, não o seu carinho e consideração.

Esta confusão tão comum sobre o que verdadeiramente seja o amor é refletida frequentemente pela imprensa. Encontrei no caderno "Vida" do Jornal do Brasil alguns artigos, ocupando várias páginas, sobre a importância do "amor" para prevenir problemas de saúde e combater o estresse.

O mais interessante de tudo foi a definição que deram de amor (mais exatamente a expressão supostamente equivalente que usaram para não repetir demais a palavra "amor"): "apoio emocional"!!!

É exatamente isso que o amor não é. E é exatamente a confusão feita pelos redatores deste jornal a mesma que causa enorme celeuma e pavor entre todos os liberais e modernistas quando alguém lembra delicadamente que a Igreja não só não passa a mão na cabeça de hereges, mas os excomunga, ou que Nossa Senhora mostrou o Inferno para criancinhas.

Apoio emocional é algo totalmente distinto de amor, mas é com esse sentido que parecem ser interpretar esta palavra os que dizem que a Verdade não deve ser pregada e o erro não deve ser combatido em nome de um suposto "amor". Não é amor que pregam esses, é "apoio emocional". É sentar ao lado do herege, passar a mão na cabecinha dele, evitando cuidadosamente os chifres, e dizer: "ah, ninguém te entende, né, queridinho? Mas mamãe taqui contigo, você é um bom menino e está certo, o pEdir Maiscedo é bispo e o céu é verde".

Apoio emocional não é amor. Amor é outra coisa, completamente diferente...

Ap 3,19: "Eu repreendo e corrijo todos os que amo; tem, pois, zelo e te converte."

Pr 3,11-12: "Meu filho, não rejeites a correção do Senhor, e não te ressintas com a sua repreensão, porque o Senhor repreende a quem ele ama, como um pai ao filho que estima."

1Cor 11,32: "julgados pelo Senhor, somos corrigidos para não sermos condenados com o mundo."

Hb 12,5-8: "Meu filho, não menosprezes a correção do Senhor nem desfaleças quando repreendido por ele. Pois o Senhor castiga a quem ama e açoita todo aquele que recebe como filho.Estais sendo provados para vossa correção. É Deus que vos trata como filhos. Pois qual é o filho que o pai não corrige? Mas, se permanecêsseis sem correção, que é comum a todos, seríeis bastardos e não filhos legítimos."

Eclo 30,1: "Quem ama o filho, usa com freqüência o chicote, para poder mais tarde alegrar-se com ele."

Pr 23,13-14: "Não poupes ao menino a correção, mesmo se lhe bateres com a vara não morrerá. Antes, batendo-lhe com a vara, salvarás do abismo sua alma."

Pr 29,15: "Vara e correção dão sabedoria, mas o menino abandonado a si mesmo causa vergonha à sua mãe."

Pv 13,24: "Quem poupa a vara odeia seu filho, mas quem o ama corrige-o desde cedo."

Amor é isso, apoio emocional é coisa totalmente diferente...

A questão do que é o Amor é hoje em dia causa de enorme confusão entre muitos. E o pior é que não se trata de uma bobagem ou de um assunto lateral ou irrelevante! Trata-se de algo que é na verdade mais do que vida ou morte: é Vida ou morte eterna. Não podemos concordar com a visão errônea de Amor como sinônimo de apoio emocional que muitos têm, considerando ser necessário relevar os erros, não perdoá-los. Perdoar é completamente diferente de relevar.

Não é essa a mensagem do Evangelho, e pregar isso é ir contra a Doutrina da Igreja.

Esta atitude, que em caricatura é passar a mão na cabeça do herege e dizer que ele está certo, é uma atitude que entra em conflito com o que a Igreja sempre pregou.

Jesus é descrito por alguns como alguém que veio para "acabar com a tirania da lei" (qualquer lei, não a lei ritual dos judeus), como alguém que prega a aceitação passiva do erro. Mas isto está errado.

O erro deve ser combatido, e isso é amor. O herege impenitente que prega a sua heresia e se recusa a aceitar a Verdade é odioso por sua heresia aos olhos de Deus e dos homens, mas mesmo assim Deus e os homens esperam a sua conversão por misericórdia.

Ele deve ser difamado (difamar não é caliniar: difamar é expor publicamente algo de mau que realmente ocorreu e fará dano à reputação da pessoa; difamar é levantar a pele de cordeiro e mostrar o lobo por baixo), deve ter seus erros mostrados, deve ser considerado nosso inimigo pessoal, sim. E isso é feito , pasmem, por amor. Não o amor romântico, mas o Amor real. É isso que os santos sempre disseram, é esse o amor de Jesus: um amor que também leva em consideração, que aliás coloca acima de tudo e como fim último, a Deus.

Amamos o irmão por causa de Deus, não por causa do irmão. O amor é dirigido a Deus através do irmão. Não pode ser de outra forma, posto que de Deus vem todo amor e a Ele deve ir todo amor.

O ódio aos hereges é portanto um ódio causado por amor.

Parece-me que não compreender que o ódio é causado pelo amor é um dos maiores problemas dos que defendem o amor romântico - pois é o amor romântico que está sendo defendido por estes, apesar de não ser este o nome usado. Romântico não quer dizer relativo a música de dor de cotovelo, mas sim a um movimento cultural, com sua respectiva visão de mundo.

O amor romântico é um amor que coloca o amado como o fim último deste amor, amando assim a pessoa "como ela é", e não como Deus quer que ela seja. Ao amarmos a pessoa "como ela é", estamos na verdade a querer que ela não se santifique, que ela não atinja um grau maior de santidade, que ela fique estagnada na condição em que está.

Mas então vamos a São Tomás no tocante ao ódio vir ou não do amor (primeiro ele apresenta as objeções, depois responde em geral e uma a uma; creio que a objeção mais comum hoje em dia é a número dois):

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SUMMA THEOLOGICA

PS Q[29] A[2] Thes.

O amor é a causa do ódio?

PS Q[29] A[2] Obj. 1

OBJ 1: Parece-me que o amor não é causa do ódio. Pois "os membros opostos de uma divisão são naturalmente simultâneos" (Praedic. x). Ora, o amor é o ódio são membros opostos de uma divisão, pois são contrários um ao outro. Logo, eles são naturalmente simultâneos, e assim o amor não é a causa do ódio.

PS Q[29] A[2] Obj. 2

OBJ 2: Além disso, de dois contrários um não é a causa do outro. Ora, amor e ódio são contrários; logo, o amor não é a causa do ódio.

PS Q[29] A[2] Obj. 3

OBJ 3: Além disso, o que vem depois não é a causa do que o precede. Ora, o ódio precede o amor, ao que tudo indica, já que o ódio implica em retirar-se do mal e o amor implica tornar-se para o bem. Logo, o amor não é a causa do ódio.

PS Q[29] A[2] OTC

PELO CONTRÁRIO, Sto. Agostinho diz (De Civ. Dei xiv, 7,9) que todas as emoções são causadas pelo amor. Portanto o ódio também, por ser uma emoção da alma, é causado pelo amor.

PS Q[29] A[2] Corpo

RESPONDO QUE, como afirmado acima (A[1] - resposta à pergunta anterior, não traduzi), o amor consiste em um certo acordo do que ama com o amado, enquanto o ódio consiste em um certo desacordo ou dissonância. Ora, devemos considerar em cada ser o que concorda antes de saber o que não concorda, já que uma coisa discorda de outra destruindo ou obscurecendo o que concorda com esta. Logo o amor necessariamente precede o ódio; e nada é odiado, a não ser sendo contrário a uma coisa desejável que é amada. E por isso todo ódio é causado pelo amor.

PS Q[29] A[2] R.O. 1

RESPOSTA à OBJ 1: Os membros opostos de uma divisão são por vezes naturalmente simultâneos, tanto real quanto logicamente; por exemplo, duas espécies de animal ou duas espécies de cor. Algumas vezes eles são simultâneos logicamente, enquanto na realidade um precede e causa o outro; por exemplo, as espécies de números, figuras e movimentos. Algumas vezes eles não são simultâneos nem real nem logicamente; por exemplo, substância e acidente; pois a substância é ne realidade a causa do acidente; e ser é predicado da substância antes de ser predicado do acidente, por prioridade de razão, por não ser predicado do acidente exceto enquanto este é da substância. Ora, o amor e o ódio são naturalmente simultâneos logica mas não realmente. Logo, nada impede o amor de ser a causa do ódio.

PS Q[29] A[2] R.O. 2

RESPOSTA à OBJ 2: Amor e ódio são contrários se considerados a respeito da mesma coisa. Ora, se tomados a respeito de contrários, eles não são contrários, mas consequentes um do outro: pois é a mesma coisa amarmos algo ou odiarmos o seu contrário. Logo, o amor a algo é a causa de ódio a seu contrário.

PS Q[29] A[2] R.O. 3

RESPOSTA à OBJ 3: Na ordem da execução, retirar-se de um termo precede virar-se para outro. Mas o oposto ocorre na ordem de intenção, já que virar-se para um termo é a razão de retirar-se do outro. Ora, o movimento do apetite pertence mais à ordem da intenção que da execução. Logo o amor precede o ódio, e cada um é um movimento do apetite.

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Outra questão também constante, e que tem a ver com a compreensão romântica do amor, é a seguinte (notem como a primeira objeção é exatamente a apresentada pelos românticos e modernistas):

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SS Q[11] A[3] Thes.

Hereges devem ser tolerados?

SS Q[11] A[3] Obj. 1

OBJ 1: Parece-me que os hereges devam ser tolerados, pois o Apóstolo diz (2Tim. II 24-26): "Ao servo do Senhor não convém brigar e sim mostrar-se manso com todos, pronto para ensinar, paciente. É com brandura que deve corrigir os adversários, a ver se Deus lhes concede o arrependimento para reconhecerem a verdade e voltarem ao bom senso, livres das armadilhas do diabo a cuja vontade estão sujeitos." Ora, se os hereges não forem tolerados e deverem ser levados à morte, eles perdem sua oportunidade de arrependimento. Logo isso parece contrário ao comando dos Apóstolos.

SS Q[11] A[3] Obj. 2

OBJ 2: Além disso, o que quer que seja necessário na Igreja deve ser tolerado. Ora, heresias são necessárias na Igreja, já que diz o apóstolo (1 Cor. 11:19): "Pois é preciso que entre vós haja dissensões, a fim de que se destaquem os de provada virtude entre vós." Logo parece que os hereges devam ser tolerados.

SS Q[11] A[3] Obj. 3

OBJ 3: Além disso, o Mestre ordenou a seus servos que deixassem o joio crescer "até à colheita" (Mt 13,30), ou seja, até o fim do mundo, como uma glosa explica. Ora, santos ensinaram que o joio são os hereges; logo, os hereges devem ser tolerados.

SS Q[11] A[3] OTC

PELO CONTRÁRIO, o Apóstolo diz (Tito 3,10-11): "Quanto ao herege, depois de uma ou duas advertências, evita-o, considerando que está transviado."

SS Q[11] A[3] Corpo

RESPONDO QUE em relação a hereges dois pontos devem ser observados: um, do lado deles; o outro, o lado da Igreja. No lado deles há o pecado, pelo qual eles merecem não apenas ser separados da Igreja pela excomunhão, mas também extirpados do mundo pela morte. Pois é matéria muito mais grave corromper a fé, o que arrisca a alma, que forjar dinheiro, que ajuda a vida temporal. Assim se falsificadores de dinheiro são por isso condenados à morte pela autoridade secular, muito mais razão há para que hereges, assim que condenados por heresia, não apenas sejam excomungados mas até mesmo levados à morte.

SS Q[11] A[3] Corpo

Por parte da Igreja, entretanto, há a misericórdia que busca a conversão do errante, o que faz com que ela não condene imediatamente, mas "depois de uma ou duas advertências", conforme a ordem do Apóstolo: depois disso, se ele persistir no erro, a Igreja, não mais esperando sua conversão, preocupa-se com a salvação dos outros, excomungando-o e separando-o da Igreja, e mais ainda o entrega ao tribunal secular para ser assim exterminado do mundo pela morte. Afinal, São Jerônimo, ao comentar Gal. 5,9: "Um pouco de fermento", diz: "Cortem a carne apodrecida, expurguem do rebanho as ovelhas sarnentas, para que toda a casa, toda a massa, todo o corpo, todo o rebanho não queime, se infecte, se estrague, apodreça, morra. Ário era apenas uma fagulha na Alexandria, mas como esta fagulha não foi apagada, toda a terra foi devastada por sua chama".

SS Q[11] A[3] R.O. 1

RESPOSTA à OBJ 1: A própria modéstia demanda que o herege seja advertido pela primeira e pela segunda vez: se ele se recusar a se emendar, deve ser reconhecido como já "transviado", como podemos ver nas palavras do Apóstolo citadas acima.

SS Q[11] A[3] R.O. 2

RESPOSTA à OBJ 2: O lucro que vem da heresia é estranho à intenção do herege, pois ele consiste na prova da constância dos fiéis, "fazendo-nos sacudir a preguiça e buscar mais cuidadosamente nas Escrituras", como declara Sto. Agostinho (De Gen. cont. Manich. i, 1). Ora, o que eles realmente desejam é a corrupção da Fé, o que seria infligir um mal realmente grande. Logo, devemos considerar o que eles têm como intenção direta e expulsá-los, não o que é alheio a sua intenção e assim tolerá-los.
SS Q[11] A[3] R.O. 3

RESPOSTA à OBJ 3: Está escrito que (Decret. xxiv, qu. iii, can. Notandum) "ser excomungado não é ser desenraizado". Um homem é excomungado, como diz o Apóstolo, (1 Cor. 5,5) "a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor". Mesmo se os hereges sejam desenraizados pela morte, isto não é contrário ao comando de Nosso Senhor, que deve ser compreendido como que se referindo ao caso em que o joio não pode ser arrancado sem arrancar o trigo, como explicado acima (Q[10], A[8], ad 1 - outra questão, não traduzida aqui), ao tratar de incréus de modo geral.

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Só para encerrar, alguns excertos da brilhante explanação de São Tomás da difícil questão do ódio e amor ao pecador (SS Q[25] A[6]) e de como o herege pertinaz deve ser tratado (TP Q[42] A[2]):

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(SS Q[25] A[6]):

"Duas coisas devem ser consideradas no pecador: sua natureza e sua culpa. De acordo com sua natureza, que ele tem de Deus, ele tem uma capacidade para felicidade (eterna) na irmandade em que se baseia a caridade; assim, temos que amar os pecadores, por caridade, em respeito a sua natureza."

"Por outro lado a sua culpa é oposta a Deus, e é um obstáculo para a felicidade. Logo, em respeito a sua culpa, pela qual eles se opõem a Deus, todos os pecadores devem ser odiados, até mesmo o pai ou a mãe, de acordo com Lc 12,26. Pois é nosso dever odiar, no pecador, seu ser pecador e amar nele seu ser um homem capaz da Salvação; e isso é amá-lo verdadeiramente, por caridade, pelo amor de Deus."

"O profeta odiou o injusto como tal, e o objeto de seu ódio era sua injustiça, que era o seu mal. Este ódio é perfeito, como ele mesmo diz (Sl 138,22): 'Odeio-os com ódio perfeito.' Ora, odiar o mal de uma pessoa é equivalente a amar o seu bem. Logo, o ódio perfeito pertence à caridade."

"Como observa o Filósofo (Ethic. ix, 3), quando nossos amigos caem em pecado, não devemos negar a eles as amenidades da amizade enquanto houver esperança de que voltem ao reto caminho, e devemos ser mais pressurosos em ajudá-los a voltar à virtude que a recuperar dinheiro se eles o houvessem perdido, pois a virtude é mais próxima da amizade que o dinheiro.

Quando, entretanto, eles caem em grande impiedade e se tornam incuráveis, não mais devemos mostrar a eles amizade. É por esta razão que tanto a Lei divina quanto a lei humana mandam que tais pecadores sejam postos à morte, pois há mais chance de que façam mal a outros que que se regenerem."

"Amamos os pecadores por caridade, não desejando o que eles desejam, ou alegrando-se no que lhes dá alegria, mas fazendo-os querer o que queremos e alegrar-se com o que nos alegra. Assim está escrito (Jer 15,19): 'Eles devem voltar a ti e não tu a eles!"

(TP Q[42] A[2]):

"A salvação da multidão deve ser preferida à paz de quaisquer indivíduos. Consequentemente, quando alguns, por sua perversidade, põem em perigo a salvação da multidão, o pregador e o professor não devem ter medo de ofender a estes homens para assegurar a salvação de muitos."



©Prof. Carlos Ramalhete - livre cópia na íntegra com menção do autor

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