I - A SUPERSTIÇÃO DO DIVÓRCIO (1)

I
A SUPERSTIÇÃO DO DIVÓRCIO (1)

Autor: G.K. Chesterton
Tradução: ©Prof. Carlos Ramalhete



É futilidade falar de reforma sem referência à forma. Tirando um exemplo do bolso do colete: nada me parece tão belo, tão maravilhoso, quanto uma janela. Todo caixilho é mágico, quer se abra ao oceano ou ao quintal; ele sempre está na fronteira do paradoxo e do mistério derradeiros da limitação e da liberdade. Se, contudo, eu seguisse os meus instintos, que me arrastam a desejar um número infinito de janelas, eu acabaria sem paredes. Aliás, diga-se de passagem, acabaria também sem janelas, pois a janela cria um quadro ao enquadrar o que por ela se vê.

Mas há um jeito mais simples de apontar meu erro, tão simples quanto fatal: eu quis uma janela, sem pensar se queria uma casa.
Este é um trabalho em curso; antes de atingir sua forma final para publicação impressa, este texto ainda será cotejado novamente com o original, e a ele serão acrescentadas notas explicativas que facilitem sua compreensão pelo leitor atual.

Hoje em dia, muito se fala em favor dessa luz e dessa liberdade, que podem perfeitamente ser simbolizadas pelas janelas; mais ainda por muitas vezes se tratar de iluminar e libertar da casa, do próprio lar. Muita gente apresenta desinteressadamente considerações bastante razoáveis, no caso do divórcio, mostrando-o como uma espécie de libertação doméstica. Na discussão do assunto, no entanto, tanto jornalística quanto generalizada, pulula a mentalidade que, de ponta-cabeça e ao acaso, deseja que haja apenas janelas, sem paredes. Dizem que querem o divórcio, sem se perguntar se querem o casamento.

Ora, para divorciar-se, em geral, parece ser necessário que se tenha passado pela formalidade preliminar de casar-se; a não ser que este ato inicial seja levado em conta, se poderia estar a discutir os penteados dos carecas ou os óculos dos cegos. Divorciar-se é, no sentido literal, descasar-se; e não há sentido em desfazer algo que não sabemos sequer se foi feito.

Talvez não haja pior conselho, no mais das vezes, que o de se fazer primeiro o que está mais à mão. É um conselho especialmente ruim quando significa, como em geral é o caso, que se deva remover o obstáculo mais próximo. É dizer que os homens não devem se comportar como homens, mas como camundongos, que róem o que está mais próximo deles. O homem, como o camundongo, solapa o que não consegue entender. Se esbarra em algo, decide que este é o obstáculo mais próximo, ainda que na verdade se trate da coluna que sustenta o telhado que lhe cobre a cabeça. Industriosamente, assim, ele remove o obstáculo; em troca o obstáculo o remove, a ele e a muitas outras coisas ainda mais valiosas. Esta espécie de oportunismo talvez seja o que há de menos prático, neste mundo já tão pouco prático.

Fala-se, vagamente, de críticas destrutivas; o problema deste tipo de crítica, contudo, não é que ela destrua, sim que ela não critique. É uma destruição sem desígnio. É desmantelar uma máquina complicada, arrancando-lhe as peças uma por uma, sem que se tenha noção alguma da serventia da máquina.
Se um homem lida com uma máquina mortalmente veloz baseando-se no princípio de que deve puxar as alavancas mais próximas, rapidamente ele há de descobrir os defeitos de tão alegre filosofia. Deixemos brevemente de lado muitos dos sinceros e seriíssimos críticos do casamento moderno; grandes massas de homens e mulheres modernos, que escrevem e falam sobre o casamento, estão a roê-lo cegamente, como um exército de camundongos.
Este é um trabalho em curso. Ele está sendo publicado aqui à medida que o trabalho progride, para possibilitar um acesso ao menos parcial dos leitores brasileiros a esta obra do grande escritor inglês.
Quando os reformadores propõem, por exemplo, que o divórcio possa ser obtido após uma separação de três anos (que é, aliás, exatamente a separação que costumava acontecer nos primeiros arranjos militares da Grande Guerra, que há pouco acabou), seus leitores e entusiastas raramente conseguem dar alguma razão pela qual o período deveria ser de três anos, não de três meses ou de três minutos.

É como quem diga “corte fora a pontinha do cachorro”, sem se preocupar onde seria feito o corte. Tais pessoas não conseguem perceber o cachorro como uma entidade orgânica; em outras palavras, não sabem diferenciar o rabo e a cabeça, não sabem onde começa e onde acaba o animalzinho. E eis a crítica principal que se pode fazer a estes reformadores do casamento: eles não sabem nem por onde começar. Eles não sabem o que ele é, o que ele deveria ser, ou mesmo o que quem o apóia supõe que ele seja. Eles nunca o examinam, nem quando estão dentro dele. Fazem o trabalho que está mais à mão, e acabam por abrir buracos no fundo do bote, tendo a impressão de preparar um canteiro num jardim. Esta questão de o que é algo, de se é um bote ou um jardim, parece-lhes abstrata e acadêmica. Eles não têm noção da grandeza da idéia que atacam, ou de como parecem pequenos, por comparação, os buracos que nela abrem.

Assim, Sir Arthur Conan Doyle, que em outros assuntos é um homem inteligente, diz que há apenas uma oposição “teológica” ao divórcio, que seria inteiramente baseada em “alguns textos” bíblicos que tratam de casamentos. É exatamente como se ele dissesse que a idéia de uma fraternidade de todos os homens fosse algo baseado meramente em alguns textos bíblicos, que afirmam que todos os homens descendem de Adão e Eva.

Milhões de camponeses e pessoas simples, no mundo inteiro, assumem que o casamento é indissolúvel, sem jamais ter lido texto algum. Numerosas pessoas modernas, especialmente após as experiências recentes nos Estados Unidos, pensam que o divórcio é uma doença social, sem ter jamais se preocupado com texto algum. Poder-se-ia afirmar que para eles, ou para quaisquer outros, a idéia do casamento é, em última análise, mística; o mesmo poderia ser dito da idéia de fraternidade. É óbvio que um marido e uma mulher não são visivelmente uma só carne, no sentido de formarem um único quadrúpede. Também é óbvio que Paderewski e Jack Johnson não são gêmeos, e que provavelmente nunca brincaram juntos, aos pés da mamãe. Há algo muito importante a admitir, ou a acrescentar, aqui.

A verdade é a seguinte: se o nonsense de Nietzsche ou de algum outro sofista permeou a cultura atual ao ponto de estar na moda negar os deveres de fraternidade, então, de fato, se há de descobrir que o grupo que teima em afirmar a fraternidade é o mesmo grupo original, em cujos livros sagrados está o texto sobre Adão e Eva.

Suponhamos que algum cientista alemão tenha oportunamente descoberto que os alemães e os homens inferiores sejam descendentes de dois macacos que não seriam de modo algum irmãos, mas, no máximo, primos distantes. E suponhamos que ele resolva afastá-los ainda mais, a machadadas, e suponhamos que ele baseie seu comportamento numa repetição da conduta de Caim, dizendo, ao invés de “porventura sou eu o guarda de meu irmão?”, “será que ele é mesmo meu irmão?” E suponhamos que esta profunda filosofia da machadada prevaleça nas universidades e nos meios da mais alta cultura, como filosofias ainda mais tolas já o fizeram. Concordo, então, que será provavelmente o cristão, o homem que preserva o texto que fala de Caim, que continuará a afirmar-se irmão do cientista, a dizer-se ainda o guarda do cientista. Ele poderia até acrescentar que, em sua opinião, o cientista parece precisar muito de quem o guarde.

E, sem dúvida, é esta a situação atual das controvérsias acerca do divórcio e do casamento. É a Igreja cristã que continua a afirmar tenazmente, quando o mundo perdeu a tenacidade, o que muitos outros afirmaram em outros tempos. Mas, mesmo assim, dizer que é uma afirmação baseada em textos é ignorar o cerne do assunto e ater-se a farrapos de argumento. O ponto crucial nesta comparação é que a fraternidade de todos os homens implica um certo modo de ver a vida, afirmado à luz da vida e defendido, correta ou incorretamente, por apelos constantes a todos os aspectos da vida. A religião que mais fortemente o defende irá continuar a fazê-lo quando ninguém mais o fizer; isso é bem verdade, e alguns de nós talvez sejamos perversos o suficiente para ver nesta defesa um ponto a favor da religião. Mas nenhum defensor desta visão a vê como uma filosofia baseada em um texto, ou em centenas deles.

A fraternidade pode ser uma metáfora sentimental. Eu posso estar iludido ao saudar um camponês de Montenegro como um irmão há muito perdido. Na verdade, eu tenho cá minhas dúvidas acerca de qual de nós esteve perdido. Mas a minha ilusão não é uma dedução feita a partir de um texto, ou de vinte textos; é a expressão de uma relação que, ao menos para mim, parece ser real. E o mesmo que eu diria da idéia de um irmão, eu diria da idéia de uma esposa.

Parece que é mal-visto começar do começo. Diz-se que são “princípios acadêmicos e abstratos que nós, ingleses, etcétera e tal”. Por alguma estranha razão, considera-se pouco prático começar a estudar algo perguntando-se de quê se trata. Por acaso, contudo, eu não estou nem aí para este tipo de praticidade; afinal, eu bem sei que ela nem prática é.

Meu homem de negócios ideal não seria um que botasse uma pilha de dinheiro na mesa e dissesse “isso é dinheiro sonante; sou um homem direto, e não me interessa se estou pagando uma dívida, dando uma esmola ou comprando um touro selvagem ou uma sauna portátil”. Apesar da franqueza contagiante do seu jeito de falar, ao ver o dinheiro vivo eu ainda diria, como um chofer de táxi, “o que é isto?!”. Eu continuaria a insistir, resmungão que sou, que é uma questão muito prática saber o que é este dinheiro, o que ele representa, a que ele se destina ou o que ele declara, qual seria a natureza da transação ou, em outras palavras, o que cargas d’água o sujeito acha que está fazendo com ele.

Começo, assim, por perguntar, de modo igualmente místico, o quê, em nome de Deus e dos anjos, um sujeito que se está casando acha que está fazendo. Tenho que começar por perguntar o que é um casamento, e a simples questão já há de revelar, provavelmente, que o próprio ato, bom ou mau, sábio ou tolo, é de um certo tipo; que não se trata de uma pesquisa ou de um acidente; provavelmente nos daremos conta de que se trata de uma promessa. Podemos defini-lo ainda melhor ao dizer que é um voto.

Muitos irão responder, imediatamente, dizendo que é um voto feito no calor do momento. Contento-me, por ora, a retrucar que todos os votos são feitos no calor do momento. Não estou defendendo os votos, sim definindo o que são; estou apontando para o fato de que os votos são o tema desta discussão.

Primeiramente, se é recomendável que existam votos, e, depois, que votos estes deveriam ser. Será que um homem deveria quebrar uma promessa solene? Será que um homem deveria fazer promessas solenes?

Trata-se de questões filosóficas; a peculiaridade filosófica do divórcio e do recasamento, contudo, comparados com o amor livre e a ausência de casamento, é que um homem quebra uma promessa e faz uma promessa ao mesmo tempo. É uma filosofia muito alemã, que nos faz lembrar o modo como o inimigo deseja celebrar a destruição bem-sucedida de todos os tratados com a assinatura de alguns tratados novos.

Fosse eu quebrar uma promessa, eu o faria sem nada prometer. Mas longe de mim minimizar a natureza discutível e importantíssima do próprio voto. Tentarei mostrar, em outro artigo, que esta operação romântica, feita no calor do momento, é a única fornalha de que pode sair o ferramental básico da humanidade, a resistência de ferro fundido da cidadania ou o frio aço do senso comum; não posso, entretanto, negar que a fornalha seja um fogo.

O voto é algo violento e único, ainda que outros que não o voto matrimonial tenham existido: votos de cavalaria, votos de pobreza, votos de celibato, tanto pagãos quanto cristãos. A moda moderna, todavia, perdeu este hábito, e os homens não conseguem perceber, por falta de paralelos, de que tipo de coisa se trata. A maneira mais simples de colocar o problema é perguntar-se se ser livre inclui a liberdade de acorrentar-se; um voto, afinal, é um compromisso consigo mesmo.

Eu poderia ser mal compreendido se dissesse, para simplificar as coisas, que o casamento diz respeito à honra. O cético concordaria, deliciado, apontando ser uma luta. E realmente o é; mas é uma luta consigo mesmo. O ponto, contudo, é que se trata de algo que necessariamente tem um toque de heroísmo, em que a virtude pode ser traduzida como “virtus”. As lutas, por sua própria natureza, têm sempre algo que implica um infinito, ou ao menos um potencial infinito. Quero dizer que a lealdade guerreira é a lealdade que se manifesta na derrota, e mesmo na desgraça; a lealdade à bandeira é mais devida na hora exata em que a bandeira está prestes a cair. Nós já aplicamos este princípio à bandeira nacional, e a questão é se é ou não prudente aplicá-lo à bandeira familiar. É claro que se pode defender que não se deveria aplicar este princípio a qualquer uma das duas; que o desgoverno da nação ou o sofrimento do cidadão fariam com que a deserção da bandeira fosse um ato de razão, não de traição. Digo apenas que se fosse este o limite da lealdade à nação, muitos de nós já a teríamos desertado há muito tempo.

Autor: G.K. Chesterton
Tradução: ©Prof. Carlos Ramalhete


Este é um trabalho em curso; antes de atingir sua forma final para publicação impressa, este texto ainda será cotejado novamente com o original, e a ele serão acrescentadas notas explicativas que facilitem sua compreensão pelo leitor atual.

Ele está sendo publicado aqui à medida que o trabalho progride, para possibilitar um acesso ao menos parcial dos leitores brasileiros a esta obra do grande escritor inglês.

Como esta versão é preliminar, pedimos sinceras desculpas por quaisquer enganos e agradecemos toda sugestão e auxílio que nos venham a ser prestados.

2 comments:

  1. Caro Professor,

    Gostaria de saber se o senhor conhece o tradutor da traduçao lançada pela Editora Globo na coleçao Nobel. Estou catalogando os livros publicados nesta coleçao e ainda nao consegui encontrar nenhuma informaçao sobre seu tradutor.
    Desde já agradeço a ajuda

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  2. Infelizmente, não tenho como ajudá-la. Lamento.

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