Sexualidade humana e a tentação

Texto firmemente desaconselhado para pessoas sensíveis; trata de como o homem e a mulher percebem de maneiras diferentes as tentações de natureza sexual.

Existem assuntos que devem ser abordados por necessidade, mas que correm o sério risco de ferir algumas pessoas mais sensíveis. Peço por favor que os solteiros e solteiras e os facilmente escandalizáveis, no santo intuito de preservar-se de coisas que podem ser tidas como grosseiras, não leiam este artigo.

O cerne da questão do pudor ao trajar-se é a diferença crucial entre homens e mulheres no tocante à percepção do sexo e à forma de agir da concupiscência da carne.

Para a mulher, o desejo sexual é algo de natureza muito mais psicológica que física. O desejo na mulher passa sempre por uma concepção mental e emocional. Esta é uma das razões pelas quais não existem revistas de homens nus, não ser as dirigidas a um público de sodomitas.

Existe porém um equivalente feminino das revistas "playboy" da vida; tomemos como exemplo algumas revistas femininas modernas, voltadas a públicos específicos.

Pode-se encontrar em bancas de jornal, dedicadas às adolescentes, revistas com nomes como "Gatos", que consistem basicamente de fotografias, em geral do rosto apenas, de atores e cantores conhecidos, com frases que dão a impressão de penetrar na intimidade do rapaz (coisas como "gosto de passear de mãos dadas ao luar"; "sou muito ciumento"; "sei fazer uma lazanha maravilhosa, que deve ser comida à luz de velas", etc).

Isto tem nas mocinhas o mesmo efeito que no rapazes é provocado por revistas francamente pornográficas, com mulheres em poses ginecológicas. Por que isso acontece? Porque na mulher o sexo é, antes de mais nada, uma expressão de intimidade. Até mesmo o sexo mais degenerado (entraremos no assunto daqui a pouco - estômagos sensíveis, é a última chance!) passa necessariamente, na mente feminina, por uma afirmação de intimidade.

Isso decorre de vários fatores, em sua maior parte biológicos. A mulher, normalmente, é mais fraca que o homem em termos físicos (o que não ocorre em termos morais!). Assim, quando uma mulher se vê em uma situação de natureza sexual com um rapaz, ela está sempre sob o risco potencial de uma violência, o que faz com que seja necessário que ela tenha plena confiança (intimidade, pois) no rapaz. Quando do ato sexual propriamente dito, normalmente também a mulher se vê em uma posição da qual ela só poderia sair com a anuência do homem, o que faz mais necessário ainda que haja confiança nele.

É ela que ficará grávida, é ela que carregará em si algo que veio do homem. Horas depois da relação sexual, a mulher ainda tem em si, mesmo que não esteja grávida, vestígios físicos da relação sendo expelidos aos poucos. Seu corpo e sua mente, por isso, urgem para que só tenha contato sexual com quem ela conhece e confia.

Quando não há confiança ou intimidade, o que ocorre em geral é o que uma senhora minha amiga chamou de "sexo complicado", ao referir-se especificamente à revista "Nova". Esta revista apresenta artigos como "Transei com o pai de minha melhor amiga"; "Fui prostituta por duas semanas em um bordel da Tailândia", coisas assim.

São na verdade o paroxismo desenfreado do mesmo tipo de tentação apresentada em uma revista como a "Gatos"; tratando-se porém de mulheres que, ao contrário das leitoras adolescentes daquela, têm já uma experiência sexual considerável, normalmente restrita a formas menos depravadas e antinaturais de sexo, ela se vê na necessidade de apelar mais, para que seja provocado o mesmo efeito que em uma adolescente se obtém com o sorriso de um rapaz bem apessoado e algumas frases denotando intimidade pessoal com ele.

Não se trata de um sexo sem intimidade pelo puro prazer animal do sexo (como ocorre com os homens), mas de um sexo em que a negação da intimidade, ou a estranheza da situação (reparem sempre no aspecto psicológico, que como veremos é totalmente ausente do equivalente voltado ao público masculino), faz com que a mulher sinta desejo sexual. Trata-se na verdade de uma situação tabu, em que a mulher obtém prazer pela própria violação de sua intimidade, ainda que apenas em histórias fantasiosas (contadas entretanto sempre de modo a fazer parecer que isso poderia ocorrer com a leitora).

Já nos homens, o que ocorre é radicalmente diferente. Para o homem, de modo geral, o sexo é totalmente dissociado do componente psicológico, que até atrapalha. O escritor americano Charles Bukowsky (não é boa gente) dizia preferir mulheres burras, pois com raiva delas o sexo era melhor. Isso é algo que para uma mulher soaria totalmente absurdo.

Mas para o homem, não há o que pensar. Para que uma mulher se excite com um strip-tease masculino, é necessário que os dançarinos usem roupas que os façam corresponder a alguma figura arquetípica, criando assim um "enredo", uma motivação psicológica (normalmente do segundo tipo, isto é, em que a ausência de intimidade, a antinaturalidade do ato, o tornam excitante, mas sempre partindo de uma reação psicológica). Assim um se veste de cowboy, outro de garçom, outro de toureiro...

Já para o homem a coisa é totalmente diferente. A excitação sexual do homem é decorrente não de uma relação psicológica com a mulher desejada, mas, pelo contrário, da ausência de tal relação. O homem se excita mecanicamente à vista da mulher bonita; a intimidade, ao contrário da mulher, normalmente faz decrescer este desejo no homem.

Seria impensável uma revista para rapazes adolescentes que trouxesse fotos de rostos de belas mocinhas e frases como a da "Gatos". Pelo contrário, o que procuram (e infelizmente encontram em nossa depravada sociedade) os rapazes é justamente revistas pornográficas pesadíssimas, que são substituídas para os homens mais velhos por revistas mais "sofisticadas", com fotografias de mulheres nuas mais "artísticas", etc. Vemos assim como o caminho é contrário, passando da degeneração mais completa a uma espécie de "artistização" (que neologismo horrendo, me desculpem) da pornografia, geralmente chamada de "erotismo".

Essa diferença básica entre homens e mulheres causa alguns efeitos dignos de menção:

1 - As mulheres raramente compreendem o efeito que tem a exibição de seus corpos para os homens. Mulheres nuas, ou seminuas, excitam o homem, especialmente quando ele não as conhece pessoalmente. Homens nus fazem com que as mulheres tenham crises de riso, a não ser que os conheçam (a eles ou ao arquétipo que representam: toureiro, garçom, cowboy...) e estejam em uma situação de intimidade (real ou negada, logo excitante pelo perigo).

Isso cria muitas vezes problemas seriíssimos para as mulheres, entre eles a violência sexual sob todas as suas formas. O velho chavão machista de "ela estava procurando", dito pelo delegado bigodudo à moça de minissaia que foi violentada, para a mulher soa como outra violência, como simplesmente uma desculpa absurda ou uma tentativa de fazer cair sobre ela a culpa de algo que ela indubitavelmente não mereceu nem poderia jamais merecer.

Para o delegado, entretanto, o que ele vê é uma mulher que o tenta pela exibição de seu corpo. Ele tem que fazer, como qualquer homem teria que fazer, um ato consciente da vontade para não avançar sobre ela.

Uma bela mulher andando em trajes sumários faz com que os homens, de maneira puramente instintiva, sintam desejo sexual. É necessário que façam um esforço consciente para não segui-la pelas ruas. Basta ver, por exemplo, como é comum que um homem perca o fio do seu raciocínio quando uma mulher belíssima adentra o recinto, coisa que dificilmente aconteceria com uma mulher, visto que ela estaria, pelo próprio fato de estar argumentando, "com a cabeça em outra coisa".

É mais que evidente que isso não justifica nem poderia justificar um crime tão asqueroso quanto um estupro. Mas é necessário que percebamos que no homem é necessário um esforço da vontade orientada pela consciência educada para que ele não proceda como um animal, enquanto que na mulher a situação é totalmente outra.

É por isso que é tão mais comum (mas não menos condenável, é óbvio) o adultério masculino, que ocorre mesmo quando o homem está apaixonado pela mulher, enquanto que a mulher só comete adultério quando já há um problema em sua relação conjugal.

2 - Os homens raramente compreendem o valor que tem a intimidade e o estar juntos para uma mulher. Para a mulher, frequentemente, é muito mais prazeiroso o momento de intimidade partilhada com o homem antes ou depois do ato sexual que o próprio ato; como para o homem é normalmente algo extremamente difícil até mesmo se manter acordado depois de uma relação sexual, isso é uma das queixas mais frequentes das mulheres, que vêem como um desamor, como a antítese do que para elas o ato sexual expressa, o homem que não resiste e cai no sono.

Isso cria, especialmente em nossa sociedade volúvel e de relações limitadas no tempo apenas, uma situação de completa incompreensão. Para a mulher, é a conversa, a intimidade, as confidências, a frágil força ou a possante fragilidade do homem, expressas na conversação e no conhecer-se mútuo, que leva ao desejo sexual. Para o homem, tudo isso é apenas um "papo de pegar mulher", etapa que ele adoraria poder suprimir.

3 - Os homens e mulheres frequentemente se vêem às voltas com uma incompreensão mútua gigantesca do que seja a beleza feminina. Para a mulher, a beleza feminina corresponde a uma figura mítica, na verdade a uma elevação de si mesma a outra condição, transcendendo a forma atual. Assim, a mulher magra quer engordar e a fofinha quer emagrecer. Devido à influência da moda e das modelos esquálidas, porém (minha mãe, que Deus a tenha, dizia que a moda era a vingança dos homossexuais contra as mulheres...), é cada vez mais vigente um modelo ideal feminino magérrimo, sem quadris ou seios, que costuma ser muito desagradável aos homens. Isso reflete na verdade uma diferença no modo de ver a beleza: para a mulher, a beleza é algo construído, elaborado, cerebral, portanto. Livrar-se das celulites (que não costumam ser consideradas de modo algum um problema pelos homens, aliás), emagrecer "aqui", engordar "ali"... É na verdade um trabalho de reconstrução cerebral do corpo, uma espécie de tentativa de fazer a nível físico uma semelhança do que ocorre a nível mental (uma sexualidade - logo uma beleza - considerada em termos mais psicológicos e cerebrais que físicos). Para o homem isso tudo parece sem sentido. o homem não entende e não admira este trabalho, ainda que possa reconhecer a beleza de uma mulher facilmente à primeira vista. A mulher "construída" dessa maneira, portanto, para o homem é simplesmente uma mulher bonita, e não o fruto de um esforço árduo, que fica assim sem a recompensa do agrado masculino.

4 - Outro fator que causa enorme estranheza mútua entre os sexos é a maneira masculina de ver o corpo "aos pedaços": seios, pernas, traseiro... Uma mulher pode ser considerada quase que uma união de pedaços de carne unidos entre si, para a maioria dos homens (isso sempre, lembremos, no plano do desejo, não da consideração da mulher como ser humano). Isso leva porém a algo que para as mulheres é especialmente odioso: a impressão de que o homem não se preocupa com elas, que ele não as vê sequer como pessoa (o que é assustador para alguém que vê o sexo como o auge da intimidade entre duas pessoas).

Os dois primeiros fatores levam a uma tremenda incompreensão de parte a parte (antes da Queda, dizia Adão "carne de minha carne", ao referir-se a Eva; depois da Queda, ela se tornou "a mulher que pusestes ao meu lado"), piorada ainda por um pretenso feminismo que na verdade busca impingir às mulheres uma visão masculina da sexualidade.

Assim, chegamos ao ponto mais prático deste longo e cansativo devaneio: o que podem fazer os homens e as mulheres para evitar que sejam levados pela tentação?

Além evidentemente do auxílio da Graça de Deus, conferida e aumentada pelos sacramentos, e das graças pedidas em oração e recebidas do Espírito Santo, há também o lado do homem. Costumo falar, a respeito da colaboração do homem com a graça de Deus, das bolhas do pé de Abraão. Abraão recebeu a Promessa, mas não ficou sentado esperando que Deus mandasse anjos ou um tapete mágico para levá-lo à Terra Prometida; ele andou, e andou muito. Provavelmente houve momentos em que parecia que não chegaria ao próximo oásis, que dirá à terra Prometida; seus pés certamente ardiam em bolhas, e mesmo assim ele andava.

Devemos portanto nos mirar no exemplo deste Santo e fazer a nossa parte. Ela consiste principalmente, como colocou nosso irmão Ewerton, em procurar desviar o olhar da fonte de tentação. Sabendo que é pelos olhos que a tentação penetra no homem (ao contrário da mulher, em que ela é um fenômeno muito mais psicológico que visual), o homem deve procurar resguardar o pudor de seus olhos.

Isto é especialmente difícil em uma sociedade hipersexuada como a nossa, em que somos expostos de todas as formas a corpos nus de mulheres. Mas é necessário, pois quanto mais eles forem vistos, mais fraca fica a nossa vontade e mais forte é a tentação. Alguns poderiam dizer que uma exacerbação de pornografia tem efeito contrário, diminuindo a excitação, mas isso não é verdade; o que realmente ocorre é uma perversão ainda maior da vontade, e uma degeneração moral ainda maior. Realmente pode cessar o desejo sexual normal, e surgirem desejos sexuais mais pervertidos e contrários à natureza (não digo homossexualismo, pois a gênese deste distúrbio é outra, mas outras taras antinaturais heterossexuais), mas a exposição à pornografia, por mais que seja extensa, nunca terá como feito a castidade.

Assim, em termos práticos, se deve evitar olhar para moças bonitas, evitar contato físico (inclusive Pai Nosso de mãos dadas, por exemplo...), evitar o máximo possível assistir TV, a não ser em canais que não ofereçam pornografia (o que é raro hoje em dia), evitar gravuras de mulheres nuas ou seminuas (presentes hoje em dia até nos jornais e revistas de grande circulação), tapando as gravuras no caso de ser este o único meio de informação...

Em suma: para que o homem possa melhor combater a tentação da carne, ele deve evitar que ela penetre pelos olhos.

Pensamentos desordenados também devem ser evitados; medidas higiênicas (banhos frios, passeios, mortificação física) são de grande valia para ajudar a combater os maus pensamentos, além é claro da oração.

A mulher pode ajudar dando-se conta de que seu corpo é fonte de tentação. Saias amplas, camisas sem decote, véus na igreja, tudo isso são auxílios que a mulher pode dar sem grandes esforços e que ajudam muito a diminuir a tentação dos homens, tão fracos que somos.

Peço que me desculpem a rudeza do tema e as generalizações, abusivas como qualquer generalização. Mas este material pode servir para que comecemos a compreender melhor como age a tentação e como lidar com ela.

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©Prof. Carlos Ramalhete - livre cópia na íntegra com menção do autor
Aviso ao leitor: Alguns artigos foram escritos em algum momento dos últimos quinze anos; as referências neles contidas podem estar datadas, e não garantimos o funcionamento de nenhuma página de internet nele referida.

2 comments:

  1. Santos Padres já diziam: “ Entre santa e o santo – muro de cal e canto!”
    Acabei de ler seu artigo onde com sabedoria desnuda a sexualidade feminina ( até para isso precisamos de homens!!!!)no qual se pode destacar: “ pretenso feminismo na verdade busca impingir às mulheres uma visão masculina da sexualidade”.O que preocupa é que as matrizes da humanidade estão sendo desrespeitadas e sem proteção, proteção que devia vir dos homens. No demais - Viva a burca – sabedoria dos árabes! Mas isso dificilmente alguém entenderá.

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  2. Comentário inicial, antes da leitura aprofundada: o erro de concordância da epígrafe do artigo já demonstra falta de cuidado que previne contra a validade das idéias que se seguem. Falar em tentação é diminuir o ser humano, alienando-o e destituindo-o de parte fundamental de seu ser, o instinto de preservação, para manter a espécie na natureza. Essa idéia de “tentação” por parte do Diabo, que perturba a consciência do ser humano, é diminuição do ser humano: se não fosse tentado pelo Diabo, não teria vida sexual, a espécie desapareceria! Que tal esquecer essa besteira de pecado original e exaltar a natureza humana em sua plenitude, originadora da continuidade da espécie e produtora de indivíduos que nos enobrecem, melhoram nossa vida e nos afirmam perante o grande mistério da natureza e da vida?

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