A Igreja, Sinal Sacramental da Salvação

Texto de uma palestra dada no Rio de Janeiro sobre este tema, explicando a necessidade da Igreja visível e da Hierarquia.

Por que a Igreja é necessária?

A Igreja é necessária para nos salvar; para nos salvar de nós mesmos. Somos todos descendentes de um pai comum: Adão. Adão, como podemos ver na Sagrada Escritura (Gn 3), "pisou na bola". Não, não tem nada a ver com sexo nem com maçãs. Deus disse a Adão que ele poderia comer de todos os frutos do jardim do Éden, menos da árvore do conhecimento do Bem e do mal. A Serpente convenceu Eva, que convenceu Adão, a comer destes frutos, para que passassem a "ser como deuses" (Gn 3,5). O que é "ser como um deus"? É determinar o que é certo e o que é errado, dizer "Isto é bom", "Isto é mal" por conta própria. Querer "ser como um deus", então, significa querer mandar no próprio nariz, obedecer ao próprio umbigo no lugar de obedecer a Deus. É isso que a sociedade de hoje prega, basta ver em qualquer banca de jornais: revistas ensinando a "descobrir o deus dentro de você" e outras barbaridades. Foi este pecado, um pecado de orgulho, que Adão cometeu.

Ora, Deus já havia advertido a ele que se ele comesse destes frutos ele morreria. E ele morreu, e com ele morremos todos nós, seus descendentes. Morremos não só de corpo - ou alguém aqui acha que vai estar vivo no ano três mil? - mas, o que é mais importante e mais trágico, de alma. Nossos corpos envelhecem - culpa do pecado de Adão -, adoecem - culpa do pecado de Adão -, morrem - culpa do pecado de Adão. Nossa vontade não obedece, como deveria, à nossa inteligência. Quem aqui nunca teve que lutar muito para conseguir vencer uma vontade que a inteligência sabe que é errada?

Nossa alma é incapaz de Salvação. Nossa alma, quando nascemos, é inimiga de Deus, tende a fazer o mal. Quando somos batizados nos livramos deste pecado original, mas permanecem seus efeitos. Continuamos, mesmo depois do batismo, a ter a vontade desobediente, a adoecer, a envelhecer, a morrer...

Depois de Adão, o homem procurou fazer com suas próprias forças algo que nunca poderia fazer sozinho, algo que o homem não tem capacidade de fazer por conta própria: reconciliar-se com Deus. Era feito então, como é feito ainda hoje pelos índios e outros selvagens, um culto meramente natural a Deus - oração, reconhecimento da existência da Divindade a quem devemos veneração (venerar é o que um filho faz com um pai: louvar - "Papai, você é o máximo!", agradecer e pedir) e adoração (adorar é oferecer sacrifícios - no caso dos pagãos de que estamos falando, sacrifícios de bichos e sacrifícios pervertidos de gente);

Esta perversão do culto a Deus, com sacrifícios humanos e tudo o mais, levou a uma outra perversão ainda maior: a idolatria. Idolatria é achar que são divinas criaturas que nada mais são que um sinal desta divindade; a ordem do mundo é um reflexo da perfeita ordem divina. Idolatria, podemos dizer, é como achar que as pinceladas são O Pintor. Podemos reconhecer O Pintor por suas pinceladas, mas é ridículo afirmar que elas sejam O Pintor!

Deus então fez Sua aliança com Abraão, tendo como sinal a circuncisão( Gn 17,11). Na circuncisão, ao mesmo tempo é efetuada e simbolizada a Aliança divina. É este o primeiro Sacramento, ou seja, o primeiro sinal visível e eficaz de uma realidade invisível.. Este mesmo sinal foi depois reutilizado na aliança com todo o povo judeu, acrescido de vários outros sinais sacramentais. Estes sinais, porém, tinham uma diferença essencial em relação aos Sacramentos da Nova Aliança: não santificavam, isto é, não infundiam a Graça Santificante ("não podiam tornar perfeito segundo a consciência o celebrante"- Hb 9,9). Pela circuncisão era realmente efetuada uma aliança com Deus; esta aliança, porém, não era uma aliança salvífica, sim preparatória para a aliança salvífica a ser efetuada no Cristo Jesus. A graça que um judeu recebesse por um "sacramento" da Antiga Aliança era devida não ao "sacramento", mas à fé na Revelação que prenunciava Cristo que, por este sacramento, ele demonstrava.

Por esta aliança o povo escolhido já passava a poder perceber que a Criação não é O Criador, mas O apresenta e pode ser usada por Ele para efetuar a Sua Aliança. Pelo uso de elementos como determinadas ervas, bichos a sacrificar, terra, etc., o povo percebia que a Criação não é ruim, mas também não é Deus! Sendo usada a serviço de Deus ela é ótima...

A Encarnação

Este é o maior acontecimento da história da humanidade, aliás da história de toda a Criação. Por que cargas d'água estamos no ano 2000? Por que não contamos o tempo a partir da Crucifixão?

Sabemos que a crucifixão, O Sacrifício de Cristo na Cruz, é o que torna possível a nossa Salvação ("Somos santificados mediante a oblação do corpo de Jesus Cristo"- Hb 10,10). Seria portanto bastante lógico que fosse a Crucifixão, e não a Encarnação do Verbo, a data escolhida para o início da contagem do tempo.

Há porém um ponto importantíssimo, algo que faz com que faça pleno sentido a escolha da Encarnação do Verbo. Como tem lembrado o Santo Padre, Cristo uniu-se de uma certa maneira a toda a humanidade - a toda a Criação, aliás - pelo fato da Encarnação.

A religião mosaica parece a nossos olhos de católicos de hoje uma estranha mistura de materialismo e de "espiritualismo" exagerado. O materialismo se encontra em coisas como a ênfase que era dada à obtenção de bens materiais, riquezas, saúde, etc. (ainda que o Livro de Job ajude um pouco a "quebrar" esta noção); o "espiritualismo" é manifesto, por outro lado, no ponto crucial da Revelação mosaica: a distância entre Deus e o homem. Deus é Deus, homem é homem. Este é o ponto central da Revelação judaica, algo que fez com que muitos santos judeus fossem martirizados, ao negar-se a prestar culto a homens como se deuses fossem (por exemplo, Dn 3). A intervenção divina, portanto, só podia ser implorada; o homem não tinha acesso direto à graça de Deus, o homem não tinha, em suma, a possibilidade de receber os Sacramentos.

E eis que com a Encarnação tudo isso mudou, e mudou muito! Não é mais "Deus pra lá e o homem pra cá"; Deus se fez homem. O Verbo de Deus se fez Carne (Jo 1,14). Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro homem e Verdadeiro Deus, passou a andar entre os homens. Deus entre os homens! Deus que se faz homem, Deus palpável, Deus que pode ser visto, cheirado, tocado...

Esta redução tremenda da distância entre Deus e o homem, esta aproximação - mais que isto, este assumir de nossa natureza por parte de Deus - é o ponto central da Encarnação do Verbo, é o apogeu, aquilo para que preparava a Antiga Aliança.

Notem bem: é O Sacrifício de Cristo na Cruz que nos dá acesso à graça; Deus nos salva pelos méritos de Cristo na Cruz. A Encarnação, porém, é o que possibilita o Sacrifício. É o fato de Deus assumir a nossa natureza, de Deus fazer-se "semelhante a nós em tudo, menos no pecado", que faz com que seja possível haver Sacrifício.

Cristo, enquanto andava, pregava e operava milagres, usou sempre elementos materiais; lama (Jo 9,6), água (Jo 2,7), a borda de seu manto (Mt 14,36), suas próprias mãos... Ao fazer isso, Ele nos mostra que a Criação não é ruim. Ele nos mostra que ruim é o mau uso da Criação. Hoje em dia está na moda falar mal de "violência", fazer campanha por "desarmamento", etc. Isto é a prova de que a sociedade está esquecendo a fé cristã, está caindo de novo no erro pagão. armas não são más; mal é o uso que delas é feito. Chicotes foram usados por Nosso Senhor para o bem (vergastando os vendilhões - Mt 21,12) e pelos romanos para o mal (chicoteando Nosso Senhor - Mt 27,26). Nosso Senhor mandou comprar espadas ("venda a sua túnica e compre uma espada" - Lc 22,36, e quando São Pedro tentou defendê-l'O com uma espada, Cristo o mandou guardar a espada pois não lhe havia dado ordens de usá-la naquela hora ("mete a tua espada no seu lugar; porque todos os que tomarem espada por sua autoridade própria morrerão à espada" - Mt 26,52). Outros, porém, as usaram para o mal.

Nosso Senhor usou sempre, portanto, elementos materiais para seus milagres. Ele mesmo, por ser homem, é material. Cristo não é uma "sombra", um "fantasminha camarada" andando para lá e para cá fazendo-se de homem. Cristo é homem, homem forte e vigoroso, com mãos calejadas do trabalho de carpinteiro, com pernas fortes das caminhadas pela Galiléia. Homem que come, que bebe, que chora, que sua.

Do mesmo modo seus milagres são milagres que usam a matéria. Ele não fez milagres "mentais"; Ele cuspiu no chão - cuspe de homem! - e misturou o cuspe ao pó do chão para curar o cego (Jo 9,6). Ele tomou pães e peixes ("Tomou, pois, Jesus os pães..." - Jo 6,11) e os multiplicou (não os criou do nada - como aliás havia criado já todo o Universo...).

Esta "materialidade", este uso da Criação, da natureza, para fazer aquilo que está acima, que está além da natureza, é a marca da Revelação Cristã. Nada no cristianismo, nada na Fé verdadeira, renega a Criação.

No primeiro século, ainda, surgiu uma seita herética, chamada "gnose", que quer dizer conhecimento, que negava que a Criação fosse boa (é a ela que se refere S. Paulo ao advertir S. Timóteo para que evite "as contradições duma ciência de falso nome"- 1 Tim 6,20). Eles afirmavam que o importante seria apenas o Espírito, e que a carne de nada valeria. Evidentemente, para fazer isto eles precisaram negar a verdade da Encarnação. São João Evangelista, então, já velhinho, escreveu em resposta a eles, para contar a história direitinho, o Evangelho segundo São João. Reparem na diferença entre este Evangelho e os outros três; os outros contam a mesma história, praticamente na mesma ordem e quase nas mesmas palavras. As diferenças são poucas. São Mateus, que era cobrador de impostos, dá o nome de cada imposto cobrado ao falar disso em seu Evangelho, por exemplo. O Evangelho segundo São João, porém, é radicalmente diferente!

Ele foi escrito bastante depois, quando já estava surgindo esta seita herética. São João escreveu seu Evangelho, podemos perceber, respondendo aos erros destes hereges. Ele o começa afirmando logo esta profunda Verdade: a Encarnação do Verbo: "No Princípio era O Verbo, e O Verbo estava em Deus, e O Verbo era Deus. Ele estava no princípio em Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e nada do que foi feito foi feito sem ele. (...) E O Verbo se fez carne e habitou entre nós" - Jo 1,1-14). Em seu capítulo 6, ele afirma com todas as letras a materialidade do Corpo e do Sangue do Senhor Sacramentado: "Porque a Minha Carne é verdadeiramente bebida, e o Meu Sangue é verdadeiramente bebida" (Jo 6,56).

Esta "visibilidade", esta "materialidade", porém, não se esgotou quando da Ressurreição. Cristo ressuscitou - e ressuscitou homem, com corpo de homem que São Tomé tocou (Jo 20,27), com Suas chagas, com braços, com pernas... - e, subindo aos céus, nos deixou ainda um sinal visível: deixou-nos a Igreja (Mt 16,18), deixou-nos os Sacramentos e sacramentais.

O que são Sacramentos? Sacramentos são sinais visíveis e eficazes de uma graça invisível. Vemos a água do batismo, mas não vemos o efeito desta água: a regeneração do homem, a sua adoção como filho adotivo de Deus. O que são sacramentais? São objetos separados e abençoados pela Igreja para o culto a Deus: imagens de santos, terços bentos, escapulários, crucifixos...

O que é - mais importante ainda! - a Igreja? Será que a Igreja é uma assembléia invisível de todos os que crêem em Cristo? Não! A Igreja "não pode esconder-se", pois é " uma cidade situada sobre um monte" (Mt 5,14). A Igreja é visível, a Igreja é Sacramento. Nós vemos as pessoas, vemos os prédios, vemos as imagens, percebemos a existência de uma hierarquia... Mas não vemos aquilo que ela opera. Não vemos porque a Igreja é Sacramento, a Igreja é um sinal visível de uma realidade de graça invisível. Não podemos ver a graça. Vemos a Hóstia consagrada, mas não vemos que é Cristo que lá está. Sabemo-lo apenas, sabemo-lo pela fé.

Algumas pessoas, hoje em dia, contaminadas pelos erros da gnose, que está voltando com o nome de "nova era", contaminadas com os erros do protestantismo - que não deixa de ser uma outra forma da gnose - acham que podem "sentir" a graça. Confundem, pobres coitados, suas sensações falhas, sobre as quais o demônio tem força, com a graça. Confundem suas emoções com a graça, e acabam por dar mais importância a "sentir-se" assim ou assado que à graça. Acabam por dar maior importância a pessoas que elas consideram "ungidas", a pessoas que despertam nelas algumas emoções, que aos próprios Sacramentos, à própria Igreja, que é, como nos ensina São Paulo, Corpo Místico de Cristo (1 Cor 12,27), à Igreja que é o Sacramento da Salvação.

Fora da Igreja não há Salvação. Esta frase, que para muita gente parece ser de uma arrogância sem fim, é uma realidade, e uma realidade profunda. Fora da Igreja não há nem pode haver Salvação porque a Igreja é O Corpo de Cristo, e é só por Cristo que podemos ser salvos. Ninguém é salvo pelo João, pelo José ou pelo Padre Marcelo. João, José ou Padre Marcelo podem, no máximo, ajudar as pessoas a chegar mais perto da Igreja, logo a chegar mais perto de Cristo.

A Igreja é portanto a visibilidade de Cristo no mundo. Toda a Criação é boa; nada do que foi criado é ruim. Maconha serve para fazer tecidos, por exemplo - a caravela de Pedro Álvares Cabral tinha velas feitas de fibra de maconha -, mas quando é fumada tem efeitos daninhos. Armas podem defender vidas, mas também mal usadas podem ser ruins. Automóveis podem levar uma moça mais rápido para o hospital para ter seu neném, mas nas mãos de um bêbado podem tirar vidas. Cachaça em pequenas quantidades faz bem para a digestão e para o coração, mas encher a cara é péssimo.

A Igreja, porém, é melhor que tudo isso. Estes exemplos que eu dei são exemplos de coisas que não são boas nem más, mas podem ser usadas para o bem ou para o mal. A Igreja, porém, é boa em si. Ela é boa por ser O Corpo Místico de Cristo (1 Cor 12,27), ela é boa por ser a Coluna e Fundamento da Verdade (1 Tim 3,15). É da Igreja que recebemos a Verdade, a Doutrina ensinada por Nosso Senhor. Sem esta Doutrina não temos como saber o que é certo e o que é errado, o que presta e o que não presta. Sem esta Doutrina somos "deuses" como o foi Adão: somos mortos. É da Igreja que recebemos os Sacramentos, o Batismo que nos torna filhos de Deus, o Santíssimo Sacramento que nos alimenta, o óleo do Crisma que nos confirma, o Matrimônio que nos une e multiplica, a Ordem que perpetua a Igreja para as próximas gerações, a Absolvição que nos redime, a Unção dos Enfermos que nos cura a alma e por vezes o corpo...

A Igreja é visível. Ela é, como já falei trocentas vezes, um Sacramento, um sinal visível de uma realidade de graça invisível. Esta visibilidade da Igreja não se refere a edifícios com torres altas, à Rádio Catedral ou ao volume do som dos encontros carismáticos no Maracanã. Esta visibilidade se refere à Hierarquia da Igreja, à presença contínua por todo o mundo de pessoas chamadas e separadas para o serviço de Deus, que recebem de Cristo por Seu Corpo que é a Igreja a capacidade de ministrar os Sacramentos, o dever de ensinar a Doutrina e a responsabilidade de governar o povo.

Estas pessoas não são necessariamente mais santas que as outras; o contrário, aliás, é perfeitamente compreensível. Afinal de contas, vocês acham que o demônio vai fazer mais força para tentar a quem? A um Zé Mané enchendo a cara de cachaça na esquina ou a um padre? Convenhamos, o Zé Mané não vale o esforço; ele já faz por conta própria o que o demônio quer! O demônio vai atrás do padre, vai atrás do Bispo...

Não é porém pela santidade delas que os Sacramentos que elas ministram valem, ou sequer que elas devem ser obedecidas e respeitadas. Ao beijar a mão do padre não é a mão do senhor Fulano, que por acaso é padre, que beijamos. O senhor Fulano é um pecador como eu ou você. Ao beijar a mão do padre beijamos, sim, a mão de Cristo. Afinal, é pela mão ungida do padre que Cristo age ao abençoar, ao consagrar, ao perdoar os pecados (2 Cor 5,18-20)...

Ao obedecer ao padre não estamos obedecendo ao senhor Fulano, que por acaso é padre. Estamos, sim, obedecendo a Cristo, reconhecendo naquele sinal visível - lembram da definição de Sacramento? - a realidade de graça invisível que ele assinala e faz verdade.

É pela Igreja visível, sinal sacramental de Cristo, que recebemos a graça. É pelo padre, é pelo Bispo, é pelo Papa. É na obediência à Igreja, no respeito ao padre - não por quem ele é, mas por causa do quê ele é - ao Bispo, ao Papa, que podemos ter a certeza de estarmos o caminho reto e de no fim entrar pela porta estreita.

Louvado seja sempre Nosso Senhor Jesus Cristo.



©Prof. Carlos Ramalhete - livre cópia na íntegra com menção do autor
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1 comment:

  1. Por quem os sinos dobram : o pau quebra em Goiás: http://t.co/XsHBhtz

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