DSI versus liberalismo

Resposta a um artigo escrito por um liberal, criticando a Doutrina Social da Igreja

Acabo de ler um artigo escrito pelo Sr. Thomas Woods, teoricamente contrário à Doutrina Social da Igreja. Uma coisa salta-me aos olhos: ele não entendeu nada, e acabou por inadvertidamente dar razão à própria acusação de economicismo de  que procurava se defender.

Explico: para ele, o mandato moral de pagamento de um salário familiar justo é primordialmente um mandato, e secundariamente referente a um salário. A noção de ser um salário *familiar* passa-lhe em brancas nuvens, assim como escapa-lhe qualquer noção do que seja “justo” ou “moral”. Quando a Igreja ensina que deve ser pago um salário familiar justo, está mirando em algo tão central às idéias neo-iluministas do autor que ele não considera que isto seja possível: a Igreja está afirmando que não é moralmente correto enviar a mulher para o mercado de trabalho. Isso causa  evidentemente  uma diminuição na disponibilidade de mão-de-obra, o que por sua vez causa  e isso ele seria forçado a reconhecer caso reconhecesse o que a Igreja prega, em primeiro lugar  um aumento no salário de mercado, que passa a poder cobrir melhor as necessidades de uma família (não de um homem e uma mulher que trabalham fora e exilam seus filhos em creches, mas de uma família onde o homem seja um pai provedor e a mulher uma mãe em tempo integral).

Vimos então o que em a ser um salário familiar. A partir daí chegamos à noção de um mandato moral. A diferença crucial entre a Doutrina Social da Igreja e o liberalismo, que tem  como lembrei no debate com o fascista  suas origens na visão calvinista da sociedade, é a base moral e comunitária de toda a organização social coerente com os princípios expressos pela Igreja. Os neo-escolásticos citados pelo autor certamente ficariam horrorizados e o acusariam de tirânico ou anarquista (extremos tão opostos que se tocam  o anarquismo deste povo é tirania econômica) caso ele considerasse que seus argumentos serviriam para negar a utilidade, a soberania e o direito das guildas. Ora, a diferença crucial entre as guildas  da mais pura tradição social católica  e os sindicatos  frutos por sua vez da visão iluminista da sociedade é que elas não são organismos supostamente representativos de uma “classe”, no sentido marxista, de operários contra outra “classe” de patrões, supostamente organizados em um outro sindicato patronal. As guildas reúnem todos os que trabalham em uma área, desde os aprendizes até os mestres e proprietários. Assim, quando um escolástico recomenda que uma guilda não aumente os salários acima do que é possível em termos econômicos, não é o mesmo, em absoluto, que uma recomendação contra um aumento de salários exterior, imposto por uma autoridade exógena e sem conhecimento de causa. A guilda engloba patrões e empregados, mestres e aprendizes. Um salário determinado por uma guilda é um salário determinado por um consenso de todo um ramo profissional (não por uma “classe” em luta com outra dentro do mesmo ramo, nem por uma “categoria”, um corte horizontal dentro de um ramo).

O mandato moral que a Igreja prega é exatamente isto: um mandato *moral*. O liberal tem enormes dificuldades em perceber a moralidade ou imoralidade de um ato consensual; para ele, a prostituição é tão moral quanto o comércio de sapatos, e a pornografia não é diferente da venda de livros de arte. Isto ocorre pq a única justiça que ele reconhece é a “justiça” consensual, a “justiça” oriunda do comum acordo, do pacto social rousseauniano.

Já a Igreja reconhece que em cada ato há  como ele mesmo nota, restringindo porém seu raciocínio ao fim próximo de cada ato, o que faz com que, por ignorar a existência de um fim último, os atos sejam vistos como intrinsecamente amorais  um componente moral, ordenado ou desordenado de acordo com seu fim último. Assim, uma relação de trabalho terá forçosamente um imenso e pesadíssimo componente moral. Não é pq um patrão tem enorme quantidade de desempregados às suas portas (como ocorreu na Revolução Industrial inglesa, imediatamente subseqüente ao fechamento dos “commons” e a enorme êxodo rural) que lhe é lícito empregar crianças por centavos em condições insalubres para produzir mais por menos dinheiro. Note a diferença entre um aprendiz em uma guilda e um operário-mirim em uma fábrica de tecidos inglesa no século XIX: o aprendiz aprende, e chegará um dia a mestre; o operário mirim sobrevive, e jamais sairá de sua máquina. O aprendiz ganha pouco dinheiro, mas está sendo alimentado, vestido e formado e um dia chegará a uma posição em que ganhará muito; o operário-mirim ganha pouco dinheiro, e o usa todo para sua subsistência... E por aí vai.

O economicismo do autor é facilmente percebido na sua forma de tratar  ou melhor, de não tratar  dos tópicos cruciais da formação moral da sociedade, hoje em dia tão presentes devido à neo-paganização do Ocidente: o que fazer do Big Brother? E da pornografia na TV? E das revistas e sítios de Internet que oferecem a mais baixa pornografia? Ou, ainda, do tráfico de drogas? Estas são questões morais, que fogem completamente ao escopo da economia. Só há pornografia ou tráfico de drogas por haver público, por haver demanda. Só há demanda por serem coisas que apelam aos mais baixos instintos humanos, às tristes conseqüências do Pecado Original. Qualquer pessoa normal e saudável, por mais santa que seja, é atraída por imagens sensuais. Elas são sensuais exatamente por isso: elas apelam aos sentidos e os atraem. Ora, estas mesmas pessoas, quando procuram aceitar a Graça, irão negar-se a assistir e a ter contato com estas coisas. Se, porém, a sociedade não prioriza a salvação das almas, se a sociedade considera amoralmente como sendo lícito o que é meramente consensual, a pornografia irá sempre grassar. Há pouco tempo vi um artigo interessante. Seu autor defendia que o Ibope de nada serve, por refletir apenas a horrífica atração pelo medonho, fruto do Pecado Original. Ele propunha que, ao invés do Ibope, fossem feitas pesquisas com as TVs desligadas, em que se pudesse perguntar às pessoas enquanto elas estavam com o cérebro ligado, não diante da TV, o que preferiam ver, e a partir daí fossem pautadas as programações. Apesar do otimismo do autor do artigo, que aparentemente não se dá conta da imensa queda nos padrões morais da população nas últimas décadas, é interessante a constatação de que há uma diferença entre o que é feito e o que se quer fazer.

A visão liberal nega esta diferença, por desconsiderar o aspecto moral ao colocar apenas o fim próximo ou imediato de um ato em sua avaliação. Ora, sabemos todos que o horrível atrai. Se alguém não reconhecer este fato, que seja posto diante de um programa do Ratinho e depois diga se não foi necessário um esforço consciente para desligar a TV ou mudar de canal.

A antiqüíssima fábula da Medusa, horrenda mulher com cabelos de serpente que petrificava quem a via, era já uma ilustração deste fato da natureza humana.

O Sr. Woods mostra desconhecer este ato, e considerar que quem estava petrificado olhara para a medusa e lá permanecera por querer, como se a mera força de vontade  e aí está mais uma vez a visão calvinista da natureza humana,, subjacente às idéias do autor  fosse capaz de libertar a vítima. Como se um ato feito em vista de um fim próximo não pudesse arrastar, por sua desordem, a um fim último desordenado. Como se Abismo não invocasse Abismo.

A ordenação de uma sociedade deve ter Deus como seu fim último, ou não será ordenação. A sociedade que vê o homem como seu fim último  e tal é a sociedade propugnada pelos liberais  é uma sociedade intrinsecamente desordenada, onde só farão crescer os Ratinhos e onde morrerão de fome os bons poetas.

Em sua visão dualista, o autor tem enormes dificuldades em compreender algo que fuja da falsa dicotomia dialética entre capitalismo e socialismo. Para ele, pregar um salário familiar justo é evidentemente uma pregação socialista, que evoca burocratas de Moscou determinando o preço das batatas no Turcomenistão enquanto os agricultores plantam inhames às escondidas para ter o que comer. A própria idéia de um “tertius” lhe é estranha; em sua visão dualista, não é possível escapar do dilema entre o mercado livre auto-regulado e o não-mercado engessado pelo socialismo.

Ora, a visão da Igreja é outra. O que prega a Igreja é uma sociedade ordenada para Deus, dentro dos quadros oferecidos pela Lei Natural e pela Revelação. Incumbe a cada família buscar o seu sustento, sim, e a cada trabalhador buscar salário que lhe permita sustentar aqueles que Deus lhe deu como responsabilidade e troféu. Incumbe, porém, também a cada patrão não visar apenas o lucro, mesmo que esta busca de lucro venha a ter como conseqüências indiretas uma melhoria na vida de seus operários (com melhores salários eles serão mais dedicados, etc.). Incumbe ao trabalhador e ao patrão serem ordenadores da sociedade. Incumbe a ambos buscar o sustento de todas as famílias que dependem de seus esforços. Sem operários não há patrão, e sem patrão não há operários. O acordo, porém, não pode ter como seus fins últimos apenas o lucro; não é permissível que seja negado o componente moral deste acordo. Ela não se torna moral pelo mero consenso, sim pela sua ordenação final. Incumbe ainda às guildas, ou corporações de ramo, um auxílio arbitral na busca deste consenso com vistas à ordenação final da relação de trabalho em Deus.

Não se trata nem de uma arbitrariedade socialistóide  como em sua visão dualista concebe o autor  em que um governo distante fixaria arbitrariamente os valores mínimos, nem de uma negociação em que só entra em jogo o fim imediato de cada parte (o patrão quer quem faça por menos, e o empregado quer fazer por mais). Não. Ambos devem buscar o que é justo ao fim, devem buscar ordenar tudo a um fim último.

Por exemplo, se eu dou um desconto na tradução de material católico, não o faço por mera idiossincrasia pessoal. Dou um desconto para ajudar a ordenar o meu trabalho, inclusive o que não é católico. É isso que o liberal não vê, e é isso que faz com que ele veja como equivalentes o empregador que paga salários que possibilitem às mães permanecerem em casa e o que paga salários de fome mas doa cobertores ao Exército da Salvação. Para ele, ambos são filantropos, ou seja, ambos agem em função de idiossincrasias pessoais, sem que haja nenhuma diferença moral entre eles.

É sim necessário perceber o que existe para que apliquemos a razão na busca de uma ordenação formal da realidade que não violente sua condição material e seu potencial de aprimoramento. É isto o que nos faz condenar o socialismo. É contudo tbm necessário perceber que somos todos filhos de Adão, e precisamos de apoio, de uma ordenação meta-econômica da sociedade que nos dê condições de nos santificar  ou até mesmo de meramente sobreviver  , o que exclui o capitalismo laissez-faire.

O patrão que dá a seu empregado um salário familiar justo não está fazendo caridade, sim ordenando os seus negócios (que não podem jamais ser um fim em si) a um fim maior.

Esta não é nem pode ser uma exigência vinda de Moscou, de Washington, de Nova Iorque ou de Brasília, mas estas instâncias devem sim estar dispostas a ajudar nas questões em que as guildas não sejam capazes de assegurar esta ordenação final. Seu papel não pode ser nem de microgerenciamento à moda socialista, nem de omissão completa à moda capitalista, sim de instância superior de apelo tendo em vista a ordenação da sociedade à Lei Natural, que deve sempre orientar a conformidade à lei do mercado.

Ou buscamos a ordenação geral, ou teremos apenas mentes-em-jarras fazendo inefáveis contratos entre si enquanto seus corpos morrem de fome e doença... 


©Prof. Carlos Ramalhete - livre cópia na íntegra com menção do autor

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